Total Supernovas no Multiverso

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Chester Margarida - 1



Áquila, 3 de Abril de 2010. 

A noite cosmopolita na metrópole Áquila nunca erra o teor de espanto e terror no coração podre e doentio de sua amada população. Mais uma noite de violência convidativa e diversão garantida por prazeres baratos: sexo, drogas e sangue, muito sangue, do jeito que ela gosta.
Não existem muitas mulheres como Chester Margarida em toda malha de asfalto e concreto que trancafia os cidadãos atrás das grades de suas janelas em prédios decrépitos do velho centro periférico, um lugar esquecido até pelas velhas e novas entidades. Jovem, vinte poucos anos, lábios carnudos revestido do mais provocante batom escarlate, pele jovial como pêssego em calda, longos cabelos brilhantes como o mais puro mel e olhos sedutores como dois poços de lava dourada, capazes de enredar em suas profundezas o mais nobre coração desavisado.
Sua beleza, seu cartão de visita. Seus vestidos colados ao corpo ou suas roupas de couro vermelho disfarçam o poder destruidor que se esconde em mãos divinamente delineadas, parceiras inseparáveis de uma faca militar ou um trezentos e oitenta, cano curto e cromado, com muitas horas de tiro. Chester Margarida trabalhava sozinha. Aprendera com a vida que lhe coube quando abandonada por sabe-se lá quem, em um orfanato público ainda bebê, mas isso era culpa do sistema, e ele cria seus próprios algozes. Ela era mais uma sobrevivente. Uma célula cancerígena num organismo infeccionado pela corrupção, uma mosca rainha sobre a merda fresca.
Quando adolescente, foi vítima de uma tentativa de estupro em seu quarto no orfanato, mas o medíocre zelador pançudo, assim que abriu o zíper da calça para pegá-la pelas costas enquanto a pobre indefesa dormia, sentiu uma faca de cortar pão abrir-lhe a garganta, o sangue quente e escarlate esguichou por entre os dedos das mãos. Chester escapou dos braços suados e peludos do gordo imundo que caiu sobre a cama guinchando feito um porco no frigorífico. 
Fora a primeira vez que matara um homem e sentirá uma paz revigorante que nenhuma aula de religião ou culinária havia lhe trazido. Suas amigas estavam vingadas, mas era hora de expandir isso a um nível superior, então ela fugiu. As mulheres da  sociedade precisavam de seus serviços.
Tornar-se uma garota de programa ou prostituta de luxo não estava em seus planos, mas era a melhor forma de atrair aqueles que sugam as tetas do poder público, adoram a prostituição, e disseminam a corrupção e criam as instituições totais, como orfanatos e manicômios. Seu relógio marcava 21h32min, seu cliente era um homem casado, pai de família, filhos, esposa, casa na praia e uma conta farta em um dos bancos da Corporação Ovolun: empresa que dominava a fabricação de medicamentos e armamentos em Áquila. Mas o prazer sexual que ele buscava sua mulher não podia lhe dar, a coitada era depressiva, rejeitava o marido, mas também o marido a traia na cara dura e sempre lhe lembrava que antes eles se casarem ela não passava de uma linda boa moça. Enfiou a vida no rabo ao se casar com esse empresário e achava que era feliz.
Ainda no banheiro de seu apartamento, de um conjunto habitacional decrépito, ela retirou o jaleco branco da farmácia que trabalhava em horário comercial e ligou o chuveiro, era o fim do expediente de sua vida normal. Colocou uma dose dupla de um uísque com gelo e ligou o toca-discos da sala em alto e bom som. Tomou banho com a porta aberta para curtir as guitarras distorcidas de sua banda favorita: Bad Honeys. Achava que bandas encabeçadas por mulheres eram de longe superiores.
Seu relógio marcava 22h10min, estava pronta. Linda. Bela e mortal. Retocou o batom já dentro do carro olhando no espelho do quebra-sol do motorista, e viu pelo reflexo um assalto em andamento. Não se importou, ela não fazia justiça, apenas tinha sua causa pessoal, poderia sim evitar esse tipo de crime, mas isso era para outros justiceiros que como ela, combatiam algo que a polícia não era capaz, ela vingava apenas mulheres.
Mulheres violentadas, mas não como no fatídico dia em que ela invocou a morte no orfanato, mas sim, mulheres que ficavam em suas casas, cozinhando, passando e trepando com seus maridos imundos, fedendo a nicotina e álcool destilados em perfume de bordéis e bares com prostitutas de esquina. Era essa violência da qual ela deveria era fruto, ou acreditava ser, com certeza de uma mãe adolescente que não teve coragem de introduzir os quatro remedinhos na vagina e os outros quatro que se ingerem para mandá-la para o inferno, ela combatia essa violência doméstica. Mesmo que tais esposas já estivessem acostumadas com o luto de maridos vivos.
O ronco do motor de seu sedã vermelho arrancou no asfalto fritando os pneus assim que o estojo de maquiagem se fechou. Calça de couro negro, botas negras, jaqueta vermelha, decote provocador exaltando os seios fartos, estava pronta, seu cliente não parava de ligar ansioso pelo deleite. Quinze minutos depois e vinte e cinco ligações perdidas em seu Smartphone ela estaciona no Hotel Orazza, como combinado. Os dois estavam ansiosos, um pela necessidade biológica de reproduzir o ato animal da reprodução e o outro, para reproduzir a seleção natural dos mais fortes. 
Como uma profissional que era, ela seguiu rumo à suíte máster alugada por seu cliente, passos calmos pelo corredor de tapete vermelho do longo corredor repleto de luminárias caríssimas que somente ele mesmo poderia ter escolhido: era mais um de sua rede de hotéis clandestinos colocados em nome de laranjas. Câmeras espalhadas por todos os lados davam a seu cliente a falsa sensação de segurança. A porta destrancada abre-se e revela o interior luxuoso do aposento, a face velha e sedenta de seu cliente lhe enoja, ela imagina se seu pai teria sido assim. O roupão púrpuro embrulhava o corpo desnudo de sua vítima que se masturbava, a barba bem cultivada emoldurava o sorriso amarelado pela nicotina de centenas de charutos. Champanhe importado no gelo. Rosas vermelhas. Pacote romântico, digno de um funeral.
Ele se levanta assim que a porta se tranca e como um cachorro louco que já tomou seu comprimidinho azul meia hora antes ele desamarra seu roupão para mostrar seu diminuto pênis enrugado ereto, Chester Margarida sorri e saca sua trezentos e oitenta cromada e descarrega o tambor de seis balas uma atrás da outra logo na cara do filho da puta conhecido como o empresário Etellot de Orazza. O rato ladrão cai de costas quebrando o abajur com o rosto desfigurado fedendo carne queimada. Crateras abertas pelas balas na face e sob o alto do crânio liberam fumaça libertando Áquila de mais um semeador de sofrimento.
 Antes de partir, como de costume, ela decepa o membro sexual e introduz sob a boca da vítima. As autoridades saberiam o motivo do crime: perversão sexual, sua marca registrada, uma assassina procurada inclusive por outros criminosos. Mas, suas múltiplas identidades lhe conferiam segurança total. Instalou seu rapel na janela e saltou os dois andares até o estacionamento.
Sem mais, partiu.

*****

O caminho até em casa fora tranquilo, já era tarde, precisava descansar. Tomou outro trago de seu uísque e caminhou até o banheiro. Olhando-se no espelho retirou a peruca e a maquiagem. O rosto e o couro cabeludo, desfigurados por uma queimadura grave, revelou-se por detrás da beleza artificial que encantava. Marcas da violência praticada em uma instituição de menores quando foi identificada como assassina do zelador de seu orfanato. Ela nunca mais se esqueceu dos horrores que passara naquela instituição de recuperação de menores.
Nunca se esquecera do monstro estuprador que fizera isso com ela novamente...
Nunca se esquecera de Etellot de Orazza.
Mas essa noite ela dormiria em paz. A esposa dele também.



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Áquila. Bairro do Centro Novo - 2




Áquila - 1370


As ruas da metrópole colossal eram mais longas do que realmente as pequeninas pernas podiam suportar, mas isso eles já sabiam desde o começo. Com as mochilas abarrotadas de quinquilharias e doces, os dois halfftis, Ladnar e Jerry, mantinham o ritmo forçado da mesma maneira como quando a demanda havia se iniciado, há dois dias, última vez em que se encontraram com Zinkt de Howerheck, o velho Anão nas cidades dos subterrâneos.
 O vento caloroso da noite agitada embalava a vontade dos dois em encontrar alguma casa de jogos clandestinos ou um prostíbulo com experiências transcendentais, mas eles tinham um acordo e o Anão nunca quebrava acordos. Os dois halfftis de não mais que noventa centímetros sentiam que a cada esquina ultrapassada entre tanta gente que ia e vinha para todos os lados, eles estavam rodando em círculos. Algo de estranho estava acontecendo no bairro desconhecido do Centro Novo e isto eles podiam sentir muito bem. A revista dos guardas do Comando Ovolun no portão de entrada do bairro fora feita mais rigorosa, mas eles não estavam com nada contra a lei, a não ser seus planos.
Um dos halfftis, o mais rechonchudo, parou com as costas diante de um gigantesco edifício abandonado e deixou-se escorregar até o chão coberto por bitucas de cigarro e latas de cerveja em um beco, entregando-se totalmente ao cansaço, semicerrou os olhos como se fosse adormecer eternamente. O outro, que trazia em seus braços um fiel vira-lata debilitado pela fome e pela sede.
— Já perdi as contas Ladnar, de quantas horas já estamos rodando em círculos neste bairro cheio de bandidos e traficantes. Pelos meus planos já era para estar na porta da casa do Anão, eu tinha certeza de que a rua era essa. — lamentou Jerry, o mais magricelo enquanto afagava o pescoço de seu fiel vira-lata observando a densa neblina que pairava na rua.
O outro halffti mais rechonchudo, vasculhou a própria mochila em busca de algo para comer alheio ao comentário do amigo, mas parou abruptamente quando gritos e sons de uma troca de tiros rompeu a ordem entre os pedestres e o transito do local.
— Que porra é essa Ladnar? Tiros?— sussurrou o halffti mais rechonchudo escondendo-se atrás de uma grande caixa de lixo enquanto puxava seu amigo pela gola do corselete de couro — Será que o Comando Ovolun encontrou nosso rastro?
— Cala essa boca Jerry, se aqueles assassinos nos acharem já era nosso plano.
Os dois sabiam bem que algo terrível estava acontecendo, os tiros que ecoavam das ruas pareciam atravessar sus corações como uma faca. Eles perceberam que um grupo dos Anarcotraficantes estavam sendo atacados por um grupo tático do Comando Ovolun. Os edifícios em torno do tiroteio estavam sendo despedaçados tamanho era o calibre dos tiros. Vidros, gritos, carros batendo, sirenes, caos total.
Era possível ouvir claramente o arrancar dos veículos e das motos táticas com seus motores super potentes. Os pequeninos trocaram olhares desesperados e abraçaram-se fortemente clamando aos deuses que poupassem suas vidas, não havia mais duvidas, eles puderam ver muito bem através do beco em que se esconderam a forma de uma gigantesca criatura metálica de quase três metros que estampava a insígnia militar do Comando Ovolun, empunhando um gigantesco lança mísseis que detonava os veículos e os edifícios na rua enquanto caçava seus alvos pela cidade causando mais destruição ainda aos civis.
 Os dois estavam incapazes de mover um membro sequer, tamanho era o medo que pairavam sobre seus corações, nunca antes em suas vidas eles haviam visto uma criatura tão devastadora quanto essa causar tamanha destruição na metrópole colossal. Tratava-se da nova arma militar do Comando Ovolun. Prontamente os dois viram que não haveria saída para eles pelas ruas e logo eles seriam pegos para prestarem depoimentos de rotina como sempre acontece quando alguém está em uma cena de confronto.
Sem mais, os dois se olharam e concordaram com o que viram: um bueiro. Um míssil detonou um restaurante do outro lado da rua irradiando uma onde de vácuo que jogo os dois a metros de distancia ao fundo do beco. Doloridos e chamuscados eles se levantaram correndo, abriram a tampa do bueiro e sem pensar duas vezes pularam. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ao Longo da Estrada - 6


A única coisa que eu sepultaria seria o homem que fui neste ultimo mês, pois aos mortos, cabe os mortos sepultarem. Minha estrada sempre foi triste e solitária e minha maior incapacidade sempre foi doar a mim mesmo de uma forma justa e solidária, pois como poderia alguém que estava despencando em seu próprio abismo resgatar um coração ferido?
E agora vem você. Um motivo a mais para acreditar que vale a pena seguir em frente com toda esperança que um novo amor pode oferecer, eu já te via muito antes em meus sonhos, mas agora é neles que você mora. Antes de você surgir no meio dessa tormenta eu tentei sozinho destruir um velho amor dentro do meu peito, mas percebi que ele nunca existiu.
Eu enlouqueço longe de você, pois eu conto as horas para estar do seu lado e poder passar a vida, ou pelo menos parte dela o suficiente que se torne real e permanente com você. Todos estão perdidos, solitários conectados em baixo das coberturas de bares e atrás de doses etílicas de sofrimento maquiado com dor e lágrimas em noites de música e festas, mas agora eu sei que procurei a vida inteira por alguém como você.
Como não olhar em seus olhos quando eles cruzam com os meus e não perceber que nossos dias podem ser muito mais felizes se os vivermos juntos, talvez nossas histórias sejam a mesma história. Como não se esquecer de tudo ao sentir seu cheiro e perceber que nem mesmo o brilho intenso das estrelas chega aos pés do que sinto quando me deito pensando em você. Você despertou milhares de dúvidas em minha mente, mas elas foram capazes de me mostrar que do alto de toda minha jornada amar novamente talvez não seja tão impossível assim.
Você é sem dúvida aquilo pelo qual eu lutaria para ter do lado todos os dias, dando carinho, beijando, estendendo a mão quando necessário e segurando num forte abraço quando a noite caísse dizendo que a coisa mais importante seria ficarmos juntos assim pelo tempo que fosse possível. Sei que nossos corações foram despedaçados por pessoas insensíveis que não souberam valorizá-los, mas agora podemos escrever tudo de uma forma diferente, não sei em que intensidade, em que momento, mas sei que vivemos até hoje para isso.
Fico pensando onde está você e fico pensando se você também pensa em mim.. Pois aprendi que o verdadeiro amor às vezes pode estar não dentro de nós, mas sim do nosso próprio lado.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


Áquila é a mais nova de todas suas irmãs. A Mãe-Criadora dividiu-se em diversas Cidades-Entidades onde todas receberam uma parte da energia do próprio planeta, a própria mãe criadora gerou seus filhos cada um a sua maneira e a manifestação do inconsciente do inefável tomou forma antropomórfica na realidade.
No útero social de cada cidade os filhos foram gerados e se multiplicaram. Eles foram gerados como frutos em Árvores Sagradas. Esses primordiais que deram continuação a linhagem de cada espécie são os heróis do mundo antigo, sobre eles as edificações da estrutura psicológica de cada uma das tribos do princípio solidificou sua crença e religião, eles foram o verbo da supraconsciência e o mundo atual a manifestação do inconsciente do próprio planeta.
Cada uma das cidades que simplesmente brotaram das entranhas do planeta possui sua própria característica genética assim como irmãos, filhos de mesmo pai e mãe apresentam variações genéticas que os diferencia em aspectos físicos. Todos os habitantes das Cidades-Entidades são descendentes diretos do próprio planeta e desde o início as tribos se divergem em cultura, mito, cosmologia e dialeto. O ponto mais belo da criação é que cada habitante de cada clã apresenta a mesma identidade genética que a Cidade-Entidade e o próprio planeta, mas com variações entre si como irmãos de sangue. 
Todos são frutos do inconsciente da Mãe-Criadora, as cidades suas filhas, seus habitantes seus filhos. Da matéria brotou o corpo-primordial e do Ovolun a alma. A esse fluxo denominado Ovolun pelos antropomórficos, a ciência chama de energia, os melanésios chamam de mana e os cristãos de Deus.
Então aqui se encerra a explicação do Ciclo Cosmogônico, da metafísica da existência do nada até a manifestação da criação diante de uma estrutura psicológica em que os habitantes tomam consciência da existência da vida.
A seguir, as novas publicações descreveram um pouco de cada uma das Cidades-Entidades, seu povo, sua cultura, sua crença e como os clãs tribais do princípio se tornaram civilizações desenvolvidas nos dias de hoje.
O Multiverso Ovolun é o que se apresenta: um mundo sem fim.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Carlópolicity - A Cidade Parasita 3


A violência toma conta dessa porra toda. A polícia desse lugar só serve para queimar gasolina e observar a marginalidade aditivada com crack tomar conta da porta de todos os bares. Você é refém, a cada momento que você sai pelas ruas quando as estrelas preenchem o céu, você é refém. Refém do descaso, da falta de investigação, do medo de retaliação contra a família de militares, aqui a realidade é bem diferente do que você vê nos filmes, pois lá sempre há um final feliz.
A vida não é assim, não há final e sim uma eterna luta contra o crime. Se não fosse eu agir na treva da calada da noite, haveria muito mais criminosos nas ruas, mas eu os guardo a sete palmos e não em sete barras de uma grade de sela. Este lugar antigamente era uma estação de partida do Multiverso um pouco mais pacífica. Agora você anda pelas ruas refém do próprio silêncio, da falta de segurança para os civis, do medo que até os próprios militares sentem desses vermes.
Mas o que ninguém vê é que essa cidade está faminta, é ela que permite que esse câncer cresça e infecte as células ao seu redor. Ela necessita do sentimento de medo e horror da população, que evitem certas ruas, certos bares, certos dias, ela se delicia desse horror e quem é que comanda uma cidade como essa? De quem é a culpa? Quem alimenta o cachorro faminto no fundo do quintal? Quem é que se senta no gabinete dando as canetadas? Isso mesmo...
Mas agora eu estou longe disso tudo, estou sintetizado num universo de idéias e sonhos antropomórficos e essa realidade não me diz mais nada, o mundo dos vivos faz parte do meu passado, agora minha existência pertence a outra lugar onde estar vivo ou não depende apenas do ponto de vista.

terça-feira, 22 de março de 2011

Carlópolicity - A Cidade Parasita 2



De qual motivo você precisa pra ser feliz? Aqui a gente encontra vários, calçadão, pesque-pague, piscina e pescaria... Sem falar do churrasquinho e cervejinha, mas e as outras coisas que você depende?
Exato! Você não depende de nada! Sabe aquela porra de carro bom que você acha que precisa ter? Pra pegar aquelas meninas que você desconfia que seja necessário possuir no seu currículo? Então, aqui rola essa hipocrisia, gente mesquinha com fígado flex: destilado e fermentado, sem falar dos pulmões flex: nicotina e cocaína, desfilando pelas ruas exibindo sensualidade comprada com promissórias a prazo, mas esse não é o que me incomoda, aliás, esse é o sistema consumista da socialight.
Hoje está rolando uma noite superaquecida com policiais rondando as ruas atrás de idiotas em pleno flagrante, bactérias com falantes a todo volume, e notas enrroladas com cartões de CPF dentro dos carros. Uma guria me pede um cigarro, sou franco e digo que não é dessa maneira que escolhi morrer, prefiro ficar curtido no mel, ela ri e me diz que não vai rolar que é de meninas que ela gosta, engraçado, pois está rolando essa cena por aqui mesmo.
Está cidade passou por uma evolução artificial, industrial, e cultural. Celulares, confecções e calças verdes, essa é a porra que está rolando, mas legal é falar sobre aquela ilha. Não! Não é a ilha de LOST! É outra...
Pra quem pesca e curte dar um role pela represa sombria dessa cidade gótica e doentia, rola um lugar que no passado servia de cemitério para um povo que desapareceu sobre as profundezas das águas.
Havia lápides por todos os lados, corpos antigos sepultando histórias antigas, pais, filhos e mães, todos eles com suas histórias enterradas sem conexão nenhuma com seus familiares, todos abandonados.
Mas aqui é assim que as coisas rolam, todos se esquecem de como essa cidade foi erguida com lágrimas e sangue, o que importa é que ela foi escolhida por Áquila e é aqui que ela desenvolve sua linhagem.
Nossa ancora está aqui, escrevendo nesse momento coisas de Áquila para todos vocês entenderem uma parcela de um mundo que vocês não fazem a mínima idéia de como funciona, pois toda essa rede interligada depende unicamente de uma única mente.

domingo, 20 de março de 2011

Carlópolicity - A Cidade Parasita 1



De qual medo somos reféns? De qual segredo subjetivo fugimos quando nos olhamos no espelho? De qual decisão gostaríamos mais de nunca decidir?
Seus problemas, meus problemas, todos nós caminhando rumo a um destino único e sem rumo. Daqui de dentro de meu detonado carrinho popular eu vejo rostos desaparecendo pelas ruas. Corações partidos escondidos atrás de lábios de nicotina, iluminando a noite com olhos etílicos enquanto o mundo parece desabar sobre minhas costas.
Eu subo e desço pelas ruas e aonde quer que eu vá, eu vejo pessoas sinceras, bebendo e fumando, brigando e violentamente aniquilando qualquer senso de amor próprio. Elas assim como eu, estão sozinhas, casais que se amam celebram a vida em família e não a solidão coletiva das noites sobre as coberturas dos bares.
Somos infelizes a nossa própria maneira, mas nos consideramos satisfeitos com nossa incapacidade de nos permitirmos amar. Solitários, parasitas sentimentais circulando pelos corações de aluguel a procura de algum vírus que nos derrube de cama e nos sentencie de amor.
Enquanto cruzo uma das ruas dona de uma grande calçada carioca vejo rostos conhecidos pela multidão. Os mesmo de sempre, mal amados e infelizes, esperando por um grande amor enquanto o álcool não lhes despedaça o controle das palavras e das lágrimas. As mesmas cadeiras, os mesmos bares, as mesmas brigas. E você continua o mesmo desde o começo de tudo isso.
A bandinha contratada se prostitui tocando os mais novos sucessos sertanejos para a moçada proletária. Viva a industrialização e a comercialização da felicidade, nunca antes vimos pessoas tão felizes em nossas cidades. Que porra é essa? Você faz parte disso? Dessa hipocrisia social que lhe obriga a se matar de trabalhar a semana inteira e que te faz acreditar que você precisa tomar uma gelada no calçadão para se alegrar? Você faz parte disso? Viva sua infelicidade e sua revolta por não aparecer ninguém que te faça mais feliz que a presença de seus solitários amigos.
Você foi deixado para trás, todos juntos celebrando a dor da solidão, o coração disparado, uma música ruim, o clima tenso da espera de uma briga, pessoas que se odeiam reunidas num espaço confinado sem fronteiras, viva tudo isso e sua falta de percepção.
Eu continuo sobre a mesa junto ao meu Red Label com Red Bull, minha camiseta do Kurt Cobain e meu All Star preto cheio de terra vermelha. Eu continuo vendo tudo isso, todas as crianças que crescem aprendendo a celebrar a infelicidade das mesas de suas casas para as mesas dos bares desse maravilhoso mar de água doce.
Viva nossa terra e nossa falta de perspectiva, viva nosso cérebro e sua dependência química de pessoas e lipídios de picanha, viva nossa incapacidade de amar o sertanejo, viva o universo particular de cada um...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Supernova - 8



Heian se levanta e segura sua cabeça com as duas mãos. Ele vai até a janela e tenta observar algo pelas ruas e não acredita no que vê. Pela janela da rua sem saída ele vê outra rua onde tanques de guerra passam normalmente enquanto civis atravessam as calçadas e vivem suas vidas sendo observadas.
─ O que era aquilo no qual eu estava conectado? ─ pergunta Heian revoltado.
─ O Multiverso Ovolun. Uma rede-social clandestina que nós os Demolidores Cruzados criamos para uso pessoal nosso e lá nós podemos nos encontrar e levar nosso plano adiante. ─ explica Zink acendendo outro cigarro na ponta do outro.
─ Que plano?
Zink de Holderheck se levanta e sorri.
─ De libertar de uma vez por todas as pessoas dessa cidade maldita.
─ Como?
─ Como você escreveu Heian. A cidade está viva e nós só precisamos nos tornar cidadãos equivalentes a células cancerígenas. E agora chegou sua vez Heian Hakinavis, assim como chegou a de seu pai e seus antepassados. Você é um antropomórfico não um ser humano.
Heian começou a se assustar.
─ Sobre o que você está falando Zink?
─ Sobre você se tornar quem você deveria ser desde o princípio um verdadeiro filho de Áquila, pois seu livro não foi uma criação sua. Você simplesmente foi um instrumento usado por Áquila para que a humanidade pudesse ouvir a voz do planeta.
─ Que porra é essa que você está falando Zink? E minha família? Meus pais? Minha infância, minha vida inteira? Tudo o que eu escrevi foi de minha autoria, eu imaginei e eu escrevi por conta de minha inspiração! ─ vociferou Heian com a face crispada de ódio.
─ Não Heian, você não tem família. Você não passa do avatar de Áquila, ou mero amigo imaginário onde através de você as coisas serão feitas, vocês dois são apenas um. ─ afirmou Zink com toda a autoridade que lhe foi garantida no princípio ─ Você é Outono, filho de Áquila e chegou a hora de nos vingarmos da humanidade de uma vez por todas.
Heian calou-se mais por respeito do que por medo, pois nunca vira seu amigo falar com tanta convicção em toda a vida. Havia razão nas coisas que ele dizia e havia uma verdade oculta na realidade do mundo. Se tudo o que seu amigo lhe dissera fosse verdade, então a parcela vazia de sua alma seria completada.
─ Está na hora de você falar com sua mãe, está na hora de você falar com Áquila...


CONTINUA...


terça-feira, 15 de março de 2011

Supernova - 7



Heian ouvia a tudo com atenção, mas recusava-se a acreditar que estava vivendo em uma situação que ele mesmo havia escrito em suas obras e quadrinhos. Zink de Holderheck não mudara ao longo do tempo, continuava o mesmo senhor de barbas e cabelos brancos. Mesmo com seus sessenta e poucos anos mantinha seu porte físico desenvolvido e um sorriso paterno que transmitia segurança sempre que algo ruim acontecia em sua infância.
  Ele e seu irmão mais velho, Helm, haviam perdido os pais ainda bem pequenos. Sua mãe morrera no parto de Heian e seu pai, Elmer Hakinavis fora assassinado, desde então os meninos foram morar com a avó materna e Zink de Holderheck ajudou a alimentá-los e instruí-los até a fase adulta.
Heian estava calado, apenas refletindo sobre sua vida e seu passado e tentando aceitar o mundo no qual ele teria de viver agora, mas era impossível. Zink o levou até o térreo onde ficava sua oficina de carros e ao longo do caminho explicou a Heian sobre como Áquila era imparcial em relação a aqueles que desrespeitavam suas leis.
Não se podia sair pelas ruas depois das dez da noite, era proibido se reunir para conversar em vias públicas, todos possuíam chips de identificação em suas mãos direitas contendo todos os dados de sua vida. Não se podia sair da cidade e nem entrar e sair sem escolta militar e autorização do prefeito de cada colônia. Que todas as petrolíferas, os bancos e as grandes indústrias farmacêuticas, tecnológicas, bélicas, alimentícias, hospitalares enfim tudo estava no monopólio da Corporação Ovolun.
Heian estava arrasado com a realidade, há poucos minutos ele estava nos braços de sua amada Ariakness e achando que aquele mundo não estava lhe satisfazendo decidiu voltar e encontrou a pior das situações possíveis. Encontrou um mundo sobre o qual ele havia escrito em seus quadrinhos e seu livro e no qual ele agora era obrigado a viver.
─ Eles planejaram tudo com antecedência. Haviam campo de concentração espalhados em todos os países onde eles levavam os rebeldes e os incineravam. A população mundial fora reduzida em quinhentos milhões de habitantes e o plano deles se concretizou. ─ explicou Zink entristecido levando Heian até a cozinha de seu escritório.
Heian entendia tudo perfeitamente, mas uma peça não se encaixava.
─ E a Corporação Ovolun se interessou em meu trabalho por qual motivo?
Zink começou a preparar um café e acendeu um cigarro para explicar, há tempos Heian não sentia esses cheiros e seus olhos brilharam por sentir-se vivo com uma coisa tão simples, usar seus sentidos naturais. Os azulejos brancos e esburacados que cobriam as paredes da cozinha, o armário azulado sobre a pia, o fogão vermelho de metal, a mesa para quatro lugares, a janelinha de vidro que dava para uma rua sem saída, suas pantufas de urso, seu roupão cor de rosa, a lâmpada amarela de sessenta watts...
 ─ Heian! ─ gritou Zink sem tirar o cigarro da boca segurando o amigo pelo braço que já estava despencando de costas da cadeira ─ Você não está bem, cara. Quase desmaiou. Escutou alguma coisa do que eu te disse?
Heian abriu os olhos devagar.
─ Hã?
─ Olhe, beba esse café, o sabor é bom e é real. Você precisa se recuperar. Abra sua boca, isso, bom garoto, beba só um pouco. Ok.
Heian empurrou a xícara de café e tapou a face com as mãos. Queria voltar, voltar a dormir e nunca mais acordar, não nesse mundo. Ele queria era voltar para seu sonho, para seu coma e não estar desperto nesse pesadelo.
─ Porque eu não fiquei em um hospital?
─ Eles querem tua cabeça rapaz. Depois que anunciaram que você faleceu. A Corporação Ovolun ficou com os direitos autorais de seu livro e foi o maior sucesso de vendas rapaz. ─ Zink disse isso orgulhoso, mas viu que Heian ficara chateado, pois ele fora roubado.
─ Eles até criaram um MMORPG, um tipo de jogo online para milhares de jogadores onde você cria e controla um avatar totalmente baseado em sua obra, com classes e raças exclusivas: ou você é humano ou antropomórfico.
 ─ Eu trabalhei em uma maldita linha de produção durante toda minha vida construindo armas de fogo para esses filhos da puta matar inocentes, e ainda por cima o que eles fazem? ─ indaga Heian exaltado batendo com as mãos na mesa ─ Eles me roubam, tentam me matar e acabam com minha vida? Quem eles pensam que são?
─ Eles são a lei Heian. Diock Sub’Azzerroze é o presidente da Corporação Ovolun e prefeito dessa cidade. Vivemos em um sistema totalitário, a Lei Marcial nos impede de sermos nós mesmos. Nossos direitos de cidadãos não existem mais. ─ declara Zink conformado com a situação na esperança que Heian se conforme.


CONTINUA...

domingo, 13 de março de 2011

Supernova - 6




─ Nada é impossível para a mente de um homem. ─ disse Zink parafraseando Heian em um dos trechos de sua obra que relata exatamente essa conversa dos dois que ainda não acorrera na realidade.

Heian estava tentando destilar todas as informações que invadiam sua mente. Se tudo estava certo, então no dia em que ele se acidentou de moto no caminho de volta para sua casa o Comando Ovolun estava a serviço...

─ Não! É impossível! ─ disse exasperado Heian para si mesmo sentando sobre a maca ─ Eu ainda estou sonhando, não é possível. O Comando Ovolun então sabia da existência da minha obra e eu não duvido nada que eles não a tenham roubado.

Zink sabia que o estado de negação de Heian era uma coisa normal a qualquer um que descubra que há algo de errado com a própria vida.

─ Heian, me responda uma coisa. Será que tudo o que você escreveu você realmente criou? ─ perguntou Zink tentando não ofender o jovem amigo.

Heian virou os olhos visivelmente ofendido e magoado. Quando sua obra fora escrita ele ainda era jovem e estava na casa dos vinte e poucos anos e seria difícil mesmo ser respeitado, mas ele nunca plagiaria nada.

─ Heian, o que quero dizer é que, você nunca pensou na possibilidade de estar escrevendo coisas que ainda estavam para acontecer? ─ explicou Zink revelando um novo ponto de vista ─ Há muitas coisas que você escreveu que somente se você fosse um vidente você saberia que estaria para acontecer ou mesmo ser construído.

Heian calou-se e olhou para a janela do quarto, a noite obscura escondia o brilho de estrelas que cintilavam em outros céus. Áquila possui o mesmo céu, mas essa cidade só existia em suas histórias não poderia existir na realidade. Sua teoria de que as cidades parasitavam os homens através de seus sentimentos era apenas um estudo sociológico para explicar seu ponto de vista, mas ele não tinha dúvidas, só poderia estar em Áquila. Há dez anos ele vivia como operador de produção nas Indústrias Ovolun e sua obra era uma crítica ao sistema capitalista, mas após isso o mundo que ele vivia evaporou e agora sua mente não podia conceber como continuar.

─ Filho, ouça: estudamos muito sua obra, sua filosofia e sua teologia. A questão é uma só, você acredita na existência de um Multiverso? ─ perguntou Zink contra o olhar determinado de Heian, seus olhos castanhos possuíam um brilho que havia se apagado até o momento de seu despertar ─ Ou você é um escritor que escreve sobre coisas nas quais você não acredita?

─ Acredito em tudo aquilo que escrevo. Na viagem da mente para outros corpos que se comportam como avatares em outras dimensões. Na possibilidade de nesse momento eu estar perdido pelo Multiverso, pois tenho certeza absoluta de uma coisa, eu não despertei na mesma cidade em que me acidentei. ─ declarou Heian se levantando de uma vez com seu roupão de paciente.

Zink tentou ajudá-lo a retirar as agulhas e os eletrodos, mas Heian arrancou a todos violentamente, estava nervoso e sua face estava marcada pelas linhas da preocupação.

─ Se não me engano já possuo trinta e três anos então? ─ concluiu passando a mão sobre a face e percebendo que alguém fizera sua barba durante todo esse tempo ─ Só não entendo como é que o que vivi nesses dez anos me pareceu tão real se estive em coma induzido?

─ Entendo filho, realmente estamos em Áquila, mas antes isso aqui tinha outro nome, ela se chamava Curitiba, mas isso fora antes de eles construírem as Super Cidades mundiais ─ Zink fez um silêncio proposital, Heian refletiu e Zink ajudou-o a se levantar e juntos caminharam para fora do quarto através de um longo corredor mal iluminado.

─ Veja bem Heian. Oitenta por cento da população mundial foi exterminada através de alguns vírus criados em laboratórios. Eles fizeram os governos obrigarem seus cidadãos a tomarem vacinas contra epidemias globais que nunca existiram e a mídia maquinou tudo. ─ disse e então depois de muito caminharem entraram em um elevador de grades, utilizado em escavações.

─ As pessoas foram envenenadas e somente os que não aceitaram tomar sobreviveram. Os governos mundiais se unificaram sobre uma única bandeira e nos unimos em super cidades, interligadas por super rodovias altamente protegidas. Assim sobrevivemos até hoje.

─ E quem está no controle desse novo governo? ─ perguntou Heian apoiando-se sobre os ombros de Zink mal conseguindo parar em pé.

─ A Corporação Ovolun. Vivemos num sistema autoritário mega-capitalista voltado totalmente para a produção industrial. ─ explicou Zink já desconfiando da próxima pergunta.

─ Zink, eu confio em você plenamente, mas Áquila não é e nunca foi uma Curitiba modificada e esse mundo também não é o que eu sempre vivi. ─ declarou Heian tentando parar que Zink o tratasse como uma criança.

─ É verdade Heian, naquele acidente você morreu, mas sua consciência despertou aqui em Áquila, em um de seus muitos corpos no Multiverso. ─ confessou Zink.

 
CONTINUA...

quinta-feira, 10 de março de 2011

Supernova - 5


Mundo Sensível. Áquila, 29 de Julho de 2020.

Quando abrimos os olhos e descobrimos que estávamos sonhando esperamos que a realidade, seja tão doce quanto nossos sonhos mais secretos. Mas, o que fazer quando não se sabe onde é seu lugar? Se no mundo dos sonhos e da imaginação ou da vida real ou virtual dos jogos de computadores. Mas, para você o que é real? Realidade?

Depois de um sonho do qual não conseguimos acordar ou um pesadelo que imprime em nossas mentes sentimentos de angústia, dor, saudade, paixão e ódio; Ao estarmos despertos temos plena certeza de que aquilo não foi real, mas os sentimentos em nossos corações nos dizem o contrário, pois para sua mente tudo o que ela é capaz de conceber é real.

Isso gera um paradoxo, pois nós percebemos o mundo através de um filtro que é nosso cérebro e pense bem, e se esse filtro estiver com problemas? Será que todos nós, no mundo inteiro percebemos a realidade da mesma maneira? Assim que um sonho se acaba ele se torna uma lembrança como qualquer outra, seja ela real ou virtual. Com o tempo você já não se lembra da diferença dos sonhos e as lembranças, pois sua mente acha que tudo foi real mesmo.

Quando Heian Hakinavis despertou de seu sono profundo com todas as lembranças de uma vida que ele nunca possuiu, seu corpo estava dormente como se ele não o utilizasse há muito tempo.

Ao seu redor havia paredes de antigos tijolos a vista, como dos antigos templos do século passado. Seu quarto na verdade era uma biblioteca e no centro onde deveria ficar uma mesa de estudo estava sua cama repleta de equipamentos hospitalares para manter seu corpo funcionando. Haviam tubos enfiados em quase todos os buracos de seu corpo, quase todos. A sua frente, em uma poltrona velha, lendo uma revista mensal de carros de corrida estava um velho amigo seu: Zink de Holderheck, um ex-piloto de corrida na casa dos sessenta que ajudou sua avó a criar a ele e seu irmão Helm e desde então atua como mecânico tunando carros para playboys e traficantes.

─ Acorde garoto, seus preciosos anos de vida devem ser vividos aqui fora. ─ declarou Zink entusiasmado com o despertar de Heian retirando o aparelho que o ajudava a respirar e medindo sua febre com a palma de sua mão.

─ O que aconteceu? ─ perguntou meio sem voz, totalmente fraco e desorientado sem fazer a mínima idéia de como ele viera parar ali.

─ O mundo mudou filho, vivemos na merda de um sistema totalitário. Algumas pessoas como você, preferiram viver sonhando em uma realidade virtual. ─ explicou entristecido fingindo um sorriso.

E como se fosse um enfermeiro experiente, injetou substancias diversas no soro intravenoso de Heian, mas não eram remédios e sim drogas pesadas altamente proibidas.

─ Isso fará com que você se levante em menos de uma hora. ─ declarou o velho amigo cobrindo Heian com uma coberta velha, pois seu corpo iria sentir muito frio.

Heian estava perplexo. Da ultima vez quando vira Zink de Holderheck, e isso fora há poucos dias, fora em sua garagem de carros onde ele e Helm compravam, reformavam e vendia carros, um comércio bem lucrativo que não justificava o fato de eles usarem o lugar como fachada para seus negócios ilícitos.

Zink de Holderheck sorria de felicidade em ver seu jovem amigo e quase um filho de volta a vida. Havia muita coisa a ser explicada e depois desse despertar não poderiam mais perder tempo.

─ Semana passada você não tinha cabelos brancos Zink ─ sussurrou Heian sorrindo e um pouco encabulado passando a mão sobre sua cabeça e vendo que ela ainda continuava raspada ─ Desde o acidente quando tempo se passou?

─ Dez anos.

Heian perdeu o fôlego e piscou perdido, ele não estava entendendo porra nenhuma do que estava acontecendo. Estaria ele em coma esse tempo todo? Mas, e todas as lembranças desses últimos anos em sua mente? Seriam de onde? E Ariakness?

─ Que? ─ esganiçou incrédulo ─ Me lembro de um acidente e depois nada mais, o que houve?

─ Escute bem, filho. Você estava sendo perseguido pelos homens do prefeito por conta do conteúdo da obra que você estava escrevendo e dos quadrinhos que você publicava na web. Eu não sei como eles descobriram, mas descobriram e queriam apagar você.

Heian piscou os olhos, incrédulo.

─ Impossível, eu ainda não tinha publicado nada. ─ declarou Heian tentando negar a realidade da situação, pois no fundo ele imaginava que se tudo o que ele desconfiava fosse verdade, o governo impediria ele de lançar sua obra ─ No fundo você tem razão, minha explicações fariam a sociedade refletir um pouco mais sobre o que é ou não impossível para a subconsciente.

 
CONTINUA...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Supernova - 4



Então uma CZ61 Skorpion, uma metralhadora tcheca feita no princípio para utilização em veículos militares sem capacidade para armas longas, abriu fogo sob a noite do alto de uma janela.

Sem dó nem piedade os que estavam ao redor do corpo do jovem acidentado sentiram seus corpos serem cravejados por balas quentes como o magma do inferno e desprenderem suas almas de seus corpos. Cabeças estourando, tripas escapando, mandíbulas esfacelando, gritos, dor e desespero.

Sangue, muito sangue...

Em menos de um minuto num raio de quinze metros havia onze pessoas no chão. Heian pode ver a chuva de fogo que descia da janela, mas seu corpo já tremia violentamente em espasmos de dor e sua mente estava confusa. Estaria ele sonhando?

A sua frente uma luz fraca que foi aumentando sua intensidade iluminou os furos da tampa de um bueiro vazando para o asfalto. Heian se perguntou se talvez a morte fosse azulada, mas não, era uma de minhas filhas chegando para cumprir com sua meta.

O homem que portava a arma tcheca surgiu nas ruas sob o olhar tenso dos soldados do Comando Ovolun que na outra esquina operavam informações com seus rádios. Eles se conheciam há muito tempo e o jovem operador de produção de armamentos não passou de uma isca nesse duelo. Uma isca de sua própria criação.

Vestido de um, sobretudo negro, e também com a cabeça raspada assim como Heian, o homem no centro da rua abriu os braços para que os soldados viessem pegá-lo. Mas ambos sabiam que se qualquer um dos dois atravessasse o limiar do conflito uma verdadeira guerra se iniciaria.

Os buracos do bueiro a frente de Heian estavam totalmente iluminados e através da viseira despedaçada do capacete ele pode ver o mesmo se abrindo de dentro para fora. Uma mulher vestida de calças e jaquetas de couro negro, e com cabeça raspada puxou Heian sangrando para dentro do bueiro e o atirador no centro da rua também adentrou as entranhas do asfalto fechando a tampa do bueiro sobre eles.

Os sentidos de Heian estavam esfacelados e a morte embalava sua perspectiva de futuro. Alguém colocou seu corpo sobre água que escorria pelo esgoto sem se importar com seus ferimentos.

─ Não tenha medo irmãozinho ─ disse uma voz masculina em seu ouvido ─ Você vai sobreviver a qualquer custo, pois sua mente será encontrada por Áquila e então você despertara para a verdadeira vida.

Heian sentiu a água suja dos esgotos lavando seu corpo e a menção do nome Áquila lhe causou um estado de pânico, pois se tratavam de leitores fanáticos de seus quadrinhos publicados na internet. Eles iriam matá-lo assim como ele havia escrito que os rebeldes de sua obra fariam.

─ Nós iremos matá-lo agora, mas você renascera em outro lugar assim como aqueles que acreditam que há um céu ou um inferno. ─ declarou alguém que segurava suas mãos e possuía olhos tão alaranjados quanto o mais terrível veneno que nunca fora visto ─ Nós somos seus leitores e acreditamos em você e em sua obra, mas você acredita na existência dos seus leitores?

Então a mulher que o arrastara para dentro do bueiro retirou de seu bolso uma seringa com um líquido rosado com mechas púrpuras que reluzia loucamente e enfiou sobre o ventre de Heian que gritou, mas gritou com todas as forças que possuía assim que o líquido adentrava suas vísceras e sentiu as forças desaparecerem.

A dor desligou seu sistema neuronal. Agora ele estava sem seus cinco sentidos, sua mente não mais percebia a existência do Mundo Sensível e apenas viveria no Mundo Inteligível, um lugar onde apenas poucos eram capazes de viver em comunhão. Alguns seres o esperavam do outro lado, adeptos e seguidores de sua doutrina particular que ele nem mesmo sabia que comandava.

E então minha conexão com ele se foi...

Desde então rumores dizem que ele morreu.


CONTINUA...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Supernova - 3


A sociedade capitalista dopou sua mente e ele acreditou que o importante é mostrar nosso interior pelo o que temos no exterior.

Heian estava tentando se libertar.

Mas uma bala certeira sob o pneu traseiro de sua 600cv fez com que perdesse o controle sobre o asfalto coberto de óleo diesel e se esborrachasse no chão.

Heian e a moto deslizaram como pedras giratórias sobre um lago plácido até chocar-se contra uma pilha de lixo sobre a guia do meio-fio. Sua pele que antes transpirava medo e desespero, agora estava tingida pelo escarlate da dor e exibia o reflexo de uma mente doentia. Heian não entendia o valor da vida, há muito havia desistido de seus sonhos. Heian aprendeu a negar a morte, e esqueceu-se da limitação da vida. Mas agora chegava minha hora de acordar esse cara.

Estavam no bairro central da cidade, um lugar dominado pelo tráfico e o crime, um lugar onde meus soldados geralmente não entravam muito menos tipos como os de Heian. Dali pra frente era uma questão de tempo até o jovem franguinho ser morto por um viciado em crack qualquer, ou uma puta psicótica com desejo de sangue.

Heian Hakinavis estava todo ralado e haviam alguns ossos quebrados. Sua face estava melada de sangue e assim que a primeira gota pingou no concreto da calçada eu enlouqueci. Entendi como uma vida pode ser destruída em segundos, agora Heian iria parar pra pensar na vida e toda merda que ele fez e sobre os sonhos que ele deixou de buscar.

Seu sangue era como o mais doce néctar para o vampiro mais voraz do mundo das trevas. Meus soldados recuaram. Uma chuva fina começou a cair como nada mais que o suor da alma de uma cidade que brilha sozinha. As moléculas do sangue começaram a mesclar-se com os átomos que compunham minha existência, o gosto da poeira do meu asfalto agora secava a boca da mosca sob a teia.

Foi a primeira vez que entrei em contato com Heian Hakinavis como eu disse. Olhos curiosos sondavam o jovem acidentado dos becos, sob as janelas dos prédios abandonados, da porta dos bares e boates. Ele não fazia a mínima idéia de que porra toda era essa, só pensava em voltar pra casa em mais uma noite qualquer de sexta-feira, tomar sua cerveja e cheirar sua cocaína para escrever seus quadrinhos marxistas e sua obra literária que me crucificava.

O destino é mesmo um velho enrugado estuprando seu tempo e sua vida, Heian sabida disso, mas estava ferido de morte e sabia que não mais resistiria. Seus olhos moribundos olhavam ao redor e só viam vultos sob a calçada, risos e piadas sobre sua condição e teve certeza que ninguém iria ajudá-lo.

Ele havia escrito que ninguém o ajudaria.

Tentou levantar a mão e pedir ajuda, mas tudo o que conseguiu foi uma mão em seu bolso traseiro roubando sua carteira recheada com o salário mínimo destinado aos escravos da falta de oportunidade. Todos sabiam que essa sacudida estava valendo a pena, se Heian sobrevivesse, seu café da manhã do dia seguinte seria o mais saboroso do que todas as refeições que todos haviam feito na vida.

Senti uma onda de piedade inundando meu ser, mas Heian era apenas mais uma célula no grande organismo social. Seu sangue e seu sofrimento abalaram as estruturas do meu ser. Nunca senti tamanho prazer em me drogar com a essência de alguém. Heian era raro, de espírito forjado com as lágrimas e a fúria de alguém abandonado e consumido pelo ódio do passado. Ele sabia que as coisas estavam erradas, uma sociedade que se baseia na necessidade de se explorar e quem mais conseguir explorar será mais feliz.

Que porra é essa? Isso é a vida que Deus quis?

Divaguei sobre a possibilidade de formá-lo um soldado de minhas linhas de infantaria imaginária enquanto a morte vinha abraçá-lo. Imaginava mil e uma coisas que poderia ser feita com aquele ser caso ele se vendesse completamente ao ódio e sua taxa de cólera já beirava os noventa e novo por cento. Ele estava despertando pra vida ao contemplar a proximidade da morte.

Quem será que havia feito tanto mal assim a este jovem rapaz? O sistema? A sociedade? De longe meus soldados fardados como porcos sagazes de armas em punho só olhavam a multidão em volta do moribundo sem adentrar o território alheio. Heian estava em choque, isso só poderia ser fruto de sua mente, nada disso estava acontecendo. Suas histórias eram fantasiosas e não poderiam se concretizar em realidade.

Em Áquila, odeio referir-me na terceira pessoa, os políticos cuidavam da lei junto aos criminosos, não havia intervenção do estado lá dentro, pois os mesmo bandidos que compunham as facções criminais também compunham as facções militares. Era tudo a mesma merda. Bandidos elegeram políticos para moldarem a lei a seu próprio bem e o cheque mate foi à eleição do prefeito mais corrupto e decadente da história da minha vida e a instauração da Lei Marcial.

Heian sabia que estava no inferno. Então o diabo tocou sua trombeta avisando a todos que a morte vinha embalada em pólvora e berros de desespero.

 
CONTINUA...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Supernova - 2


Ele é como se fosse uma célula cancerígena estraçalhando meu sistema neuronal. Na verdade eu odeio todo tipo de arte, o reflexo do espírito dos homens, criando uma tese confrontando com uma antítese e sugando minhas forças criam suas sínteses.

Heian é um falido roteirista de quadrinhos que publica suas obras gratuitamente na web. Mas, o problema dele é que ele percebe essa porra toda que acontece, é como se ele fosse minha própria consciência. Suas obras falam de uma possibilidade de a cidade em que todos moram ser uma entidade viva que se alimenta dos medos e desejos de seus habitantes.

Maldito filho da puta! Ele captou uma inspiração que se conectou a minha mente, ao que sou em aspecto. Agora eu e esse verme somos como se fossemos apenas um, mente e subconsciente. Todo dia tento me comunicar com ele, mas é ele quem me procura. Envio sinais, mas o cara é desligado demais assim como todo jovem de vinte e três anos é da realidade e não me ouve.

Eu nunca me liguei em sua existência até que uma força terrível começou a crescer em seu coração e meus sentidos de caçadora logo perceberam uma presa em potencial. Quando experimentei de seus sentimentos fui tragada para dentro de um vício avassalador como a pior droga de que alguém pode depender.

Então ele começou a me sugar e transformar minha essência e páginas de quadrinhos virtuais, aspectos do inteligível de onde provenho passado para o mundo sensível através de sua mídia e voltando para o mundo virtual. Se esse cara conseguir publicar essa merda de obra e começar a instalar na cabeça das pessoas a idéia de que todos vivem em uma cidade viva, ferrou! Todos despertariam para uma nova percepção da vida ao forçarem suas mentes contra a realidade.

Descobririam a porra da verdade e aí viria o caos.

A concepção do Espírito Absoluto, a tese, a antítese e a síntese. Inteligível, sensível e virtual. Foi então que percebi que estávamos mais do que ligados. Passamos a ser um só.

O Homem e a cidade.

Heian Hakinavis e Áquila.

Nada mais que um mero operador de produção em uma fábrica de armamentos da Corporação Ovolun, dotado de uma alma quente como o fulgor de uma Supernova. Você deve se perguntar que tipo de relação é essa que possuímos não é? Amor platônico, saca? Então, é que Heian não sabia que realmente eu existia. Não até depois do que aconteceu.

Era uma sexta-feira, dia 14 de Novembro de 1380 d.c, quando no fim da tarde Heian saiu das Indústrias Ovolun, um complexo industrial onde se fabrica desde automóveis, eletrônicos, aviões e até as armas de fogo que é onde nosso amigo trabalha que meus soldados foram encontrá-lo.

Não havia dois jovens roqueiros de cabeça raspada com alargadores em ambas as orelhas que andam de motos de 600cv e vestem-se como mendigos em todo complexo, logo meus soldados não demoraram a encontrá-lo. Mas, Heian avistou a viatura do Comando Ovolun, a tropa de elite das forças militares, e arrancou sem nem ter tempo de encomendar sua alma ao diabo, estava em choque.

Como uma tropa de anticorpos sedenta por destruir um vírus, meus homens foram atrás de Heian armados até os dentes com ordem para exterminá-lo. Ora, o cara descobriu que eu sou uma entidade viva, um aspecto do inteligível, já pensou essa idéia sendo impressa na mente da sociedade consumista. Eles refletindo sobre isso, não! Eu não posso deixar que isso vaze.

A perseguição atingiu o coração de minhas entranhas venosas e por minhas veias arteriais, moto e viatura costurava o trânsito pelos sinais vermelhos como sangue esguichando da face.

Heian não fazia a mínima idéia pela qual estava sendo seguido e por vielas e becos escuros derrapava e acelerava sua moto cima dos 160 km por hora. Sua mente oscilava sobre a existência da realidade. Coisas doentias e sobrenaturais estavam acontecendo, coisas impossíveis como o momento em que ele vivia agora. Coisas sobre a possibilidade da manipulação da realidade ou da criação de uma super-realidade.

A noite sobre minha cabeça era sempre doentia e uma névoa espessa encobria meus prédios góticos e caóticos repletos da mais miserável escória da humanidade. Habitam- me vermes e demônios consumidos em sexo e crack desesperados por violência para sentirem-se vivos.

Vermes...

Heian era como uma estrela de prata no céu do inferno, não combinava com a cidade em que vivia. Não praticava crimes nem se vendia ao sexo, não roubava nem traficava, era um puto de um civil normal. O mais puro idiota que não se vendia ao sistema consumista. Acreditava piamente que seu trabalho de merda iria lhe dar dignidade, que seu salário mínimo iria lhe dar a oportunidade de levar as garotas ao cinema, tomar sorvete e refrigerante, beber cervejas e consumir suas drogas em boates fedendo a sexo. Mas, o trabalho lhe fez um homem vazio, despedaçou seus sonhos, escravo consumista. Ensinou-lhe que somos feitos das coisas que possuímos e não do que sonhamos.
 
CONTINUA...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Supernova - 1


ÁQUILA



Mundo Inteligível. Áquila, 10 de Outubro de 2656, dez anos atrás...



Uma puta velha isso sim é o que sou! Se bem que para meus setecentos e noventa e sete mil anos eu ainda sou uma prostituta de luxo pra humanidade.

Cara! Pode parecer que não, mas cada um vem aqui e goza do jeito que quer e ninguém está nem aí pra merda do chiclete grudado em baixo do banco do metrô. Todo esse cheiro de fumaça e suor, misturado com sangue e pólvora nas madrugadas, com motores carburando diesel e melancolia e eu aqui a me expor como uma metrópole caótica e perversa.

Pro inferno a humanidade e sua necessidade de me dopar com sangue e lágrimas ante minhas calçadas cortadas pelos rios do medo e do desespero. Eu aspiro noites mais agitadas com homens morrendo em acidentes em louvor a velocidade, burgueses idiotas contaminados pela mídia exploradora, assassinatos em hotéis de luxo, toda essa balburdia que somente uma metrópole pode proporcionar.

Todas as noites um fluxo terrível de carros alucinados bombeiam o ódio entre minhas veias despedaçadas num vai-e-vem frenético e alucinado, uma porra de uma taquicardia alucinante.

Os parques municipais mais parecem cemitérios a céu aberto sepultando passados e histórias macabras, mas é aí que meus pulmões despedaçados pelo outono inalam todo o pó agitado pela multidão. Então fico acelerada como uma virgem na hora do abate e então vem à chuva, e com meus sentidos expandidos sinto cada choro, lamento e sussurro. A fome avassaladora faz com que eu me consuma em cada sentimento humano, cada lágrima caída refresca minha dor, cada gota de sangue pingada na calçada aumenta o meu amor e só posso lhe dizer que sou extremamente apaixonada pela merda dessa sociedade hipócrita.

Bactérias idiotas construíram o estado moderno em busca de liberdade e criaram uma forma de se controlarem e nem sequer perceberam que são moscas sob a teia. E adivinha quem é a aranha?

Para cada tijolo que constitui as membranas de meu tecido corpóreo há um homem equivalente que equivale a nada, apenas mais um no grande esquema escravocrata da dignidade-moderna de consumo.

Ratos são mais felizes que homens, não refletem, apenas executam. Mas, é assim que me fortaleço, necessito da angústia do povo, de sua necessidade de ter fé, do ópio que consumem ao acreditarem que haverá um mundo melhor amanhã.

Aqui estamos no inferno meus queridos! De todas minhas irmãs sou a mais nova, a mais perversa e doentia das metrópoles do mundo moderno. Uma deusa sintetizada em uma maquete viva de construções, homens e seres do abismo cercados por tijolos, monóxido de carbono e pólvora.

Somos manifestações de nossas próprias mentes subservientes ao nosso próprio desejo, conectadas pelo subconsciente, somos nós que ao acreditarmos na realidade formamos nossa própria super-realidade, uma grande rede interligada de mentes que sustentam a realidade.

Os homens construíram meus órgãos: prédios, ruas e avenidas, esgotos, prefeituras, fóruns, bombeiros, lojas, hospitais e cemitérios. Eles sonharam subjetivamente e no mundo material refletiram seus sonhos, sua idealização de imprimirem seus espíritos no mundo.

Imprimiu-se na realidade, cada qual sua visão do inteligível e aos poucos fui sendo formada no mundo sensível para que com a parcela mínima do espírito de cada homem eu me tornasse uma entidade viva.

Em 29 de Julho de algum ano eu nasci. Pronta para me alimentar de todos os sentimentos produzidos pelos meus habitantes, cada qual como uma célula, com sua função, origem e destino final. Mas como toda criatura que busca superar seu criador, decidi ser mãe.

Eu era a filha bastarda da sociedade, mal cuidada e mal amada, uma cidade caótica dominada pelo tráfico e a criminalidade. Oh, mundo cruel e injusto, mas fui rebelde e comecei a estraçalhar cabeças contra volantes desgovernados sub minhas vias arteriais. Banhei-me no sangue de inocentes assassinados e pirei, fiquei louca com a possibilidade de me sentir viva a cada morte que me banqueteava. Cada surto de terror de cada atentado terrorista, cada incêndio, cada enchente! Por Deus! Que porra é essa que me deixa louca? Será a vida? Mas, sou uma cidade e cidades não são vivas!

Cara... Vamos entender essa porra juntos. Nós, cidades, nascemos da mente dos homens, dos arquitetos e engenheiros do inteligível que nos imaginam e nos constroem. Cada mente criando uma parte do todo. Vivemos numa espécie de super-realidade parecendo ser algo real, vivemos no reflexo do pensamento coletivo.

E como não poderia deixar de ser, em um apartamento decrépito no centro da Cidade Velha, Heian Hakinavis é o centro de toda dor causada ao meu ventre.
 
CONTINUA...