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sexta-feira, 12 de março de 2010

O Desabafo de Outono - 2


O despertar é sempre devastador. É que ele te retira a parcela fantástica da virtualidade da vida. Quando abrimos os olhos acreditamos estarmos de volta ao mundo real, mas você é um idiota se pensar assim.
Lembra quando eu te disse dos dois mundos interligados que você nem se dá conta de que existe? Então, quando você dorme em sua realidade é aqui que você acorda, nas trevas de um mundo psicodélico que nenhuma merda pode equiparar-se.
Existem alguns tipos como eu que nunca se acostumam com o despertar. A solidão desse lugar está impregnada em minhas entranhas e nem mesmo o despedaçar das folhas me fortalece.
Daqui de dentro do meu carro velho e sujo de latas de cerveja e pontas de cigarro eu vejo uma movimentação do outro lado da rua. A noite está gostosa como mais uma doce noite de outono. Cara tem tanta gente aqui que você nem imagina.
Acredito que tenha vindo todo mundo, os convidados e os que se infiltram como sempre. Parece que está rolando um som lá dentro, posso sentir o baque surdo dos graves vindo de dentro da casa, é hora de entrar.
Eu nunca me acostumo com a merda da lama que se faz nas ruas de Áquila e eu odeio essa lama, pois sempre gosto do meu coturno preto e bem lustrado. O gramado do quintal frontal está cheio de gente bêbada e drogada, uma moça nua da cintura pra cima dança em cima do capo de um carro com as portas abertas, tem muita gente em volta dela. Eles ouvem Ava Adore do Smashing Punpkins, cara você não tem idéia do quanto eu curto eles, acho que desde que rolavam aqueles bailes punks no centro.
A varanda está com um clima de colegial bem engraçado, tem muita gente se amassando e ninguém tem o mínimo pudor em se conter, às vezes me dá saudade de quando isso era comigo.
A porta da frente está completamente abarrotada de gente doida e todo mundo parece querer beber e fumar tudo o que pode de uma vez, um grupo de jovens usa uma espécie de uniforme padrão de rebeldia. Todos estão vestidos com camisas pretas com uma inscrição do tipo “Só o suicídio pode te salvar”, acredito que eles são estudantes de faculdade, até mesmo acho que já foram meus alunos. Sei lá.
Eu vou me abarrotando como posso casa adentro e um cheiro de mijo e cigarro um pouco coalhado com álcool defuma o ambiente. Aqui dentro o som está bem mais forte e abafa todas as conversas, está rolando “Nirvana” no som da sala, a galera parece enlouquecida e tem muita coisa quebrada já.
Eu fico me perguntando quem marca uma reunião de conspiração numa festa de rock, cheia de jovens bêbados e drogados, fazendo sexo por todos os cantos da casa. A resposta veio quase como uma cuspida na minha cara, pois uma jovem de uns dezessete anos saiu cambaleando do banheiro, acho que ela acabou de urinar em pé, mas isso não importa.
Foi o primeiro rosto conhecido que vi desde que cheguei pra falar a verdade, o único que conheço há mais de dezenove séculos. Ela sorri em me ver, seus olhos amendoados parecem brilhar por trás de uma cortina invisível de álcool. Ela me abraça e seus lábios molhados parecem sugar toda vida de minha boca.
— E aí? — ela diz após me beijar — Foi fácil achar minha nova casa?
Eu sorrio constrangido.
— Você parece ter um gosto meio peculiar para suas moradias.
— É que você ainda não viu minha casa na praia. — diz ela com seu sorriso malicioso e juvenil me puxando pela mão e subindo as escadas para o segundo andar.
Ela me leva até uma espécie de sala de estar. Há uma televisão velha e vários quadros de pessoas de verdade, acho que são seus pacientes mais queridos ou aqueles que mais sustentam sua existência.
— Que horas que vai começar a reunião? — eu pergunto já me arrependendo no mesmo momento assim que percebo que provavelmente ela não quer falar sobre isso.
— Você precisava ser tão direto assim?
— É que...
Ela solta minha mão e o pior de tudo é que ela é a única pessoa no mundo que consegue fazer com que eu me sinta culpado até quando estou certo. Acredito que seja uma habilidade especial que ela tem, do tipo “Eu ferro com tua mente quando eu quiser”.
— Já foi! — dispara ela acendendo um cigarro e soprando a fumaça em minha face e o pior é que eu odeio quando ela faz isso e ela sabe disso muito bem.
— O que já foi?
— A reunião cacete! — dispara ela irritada — Não é isso que te trouxe até aqui?
Acho que ela não sabe o quanto ela fica linda quando está brava. Seus cabelos castanhos encaracolados caindo sobre sua face me fazem ficar um pouco perdido nas nossas conversas.
—Na verdade não foi por isso que eu vim. — confessei com um fio de arrependimento.
Ela me olhou assustada com se eu tivesse acabado de confessar um crime e cai na gargalhada até cair de costas sobre uma poltrona de coro ao lado da lareira. Suas bochechas ficam vermelhas e ela parece que estar à beira de um colapso respiratório.
— Você só pode estar brincando, fala sério que existe outro motivo?
— Preciso cair fora e preciso que você me ajude a fazer isso.
Ela ficou séria e pálida, tragou seu cigarro profundamente soprando a fumaça de lado, como ela sempre faz quando me olha profundamente antes de me dizer uma coisa que me deixara arrasado.
— Você sabe que é proibido. — declarou como se fosse minha mãe.
— Eu sei, mas a questão não é o que se pode nem o que se deve. Estamos falando sobre minha vida, sobre meus sentimentos entende?
— N...a...o...tio. Não! — ela diz dobrando o lábio inferior como se fosse uma criança sonsa.
— Por favor! São só umas férias e nada mais. — imploro como um filho, mas o pior é que ela ainda é apenas uma jovem menina, quer dizer, já está nessa forma há muito tempo, mas ainda é jovem e linda de qualquer maneira.
— Você está apaixonado não está? — ele me indaga já lendo a resposta que me trai em meus olhos, eu não sei como ela faz isso, mas sempre ela acerta.
As palavras me escapam e me sinto envergonhado. Não consigo encarar seus olhos. É difícil quando você tem uma história com uma pessoa e depois você quer discutir seu mais novo relacionamento com ela. Para mim é impossível.
— Foi um erro eu ter vindo aqui. Volte para sua festa. Fui... — eu digo virando o mais rápido possível em direção a escada para que ela nem sequer tenha tempo de me impedir. Minha vontade é de sair correndo. Evaporar.
—Hei! — ela grita correndo em minha frente e dando uma tapa em meu peito — Espere aí, as coisas também não são assim.
Ela me encara enquanto traga seu cigarro de filtro sujo de batom soprando a fumaça pelo canto da boca e com todo charme possível retira uma mecha de seu cabelo enquanto calcula simetricamente suas próximas palavras.
— E se eu te ajudar só mais uma única e ultima vez? — oferece-me erguendo uma de suas delicadas e finas sobrancelhas com um brilho misterioso dançando em seu olhar e um sorriso torto no canto de sua boca.
Eu quase sinto uma onde de expectativa, mas sei que ela não faria isso de bom grado, com certeza ela quer alguma coisa. Então um casal sobe correndo as escadas e parecem se assustar ao nos ver e o cara alto e forte que segura a menina pela mão nos diz:
— Será que poderíamos usar a suíte presidencial?
Ariakness sorri para eles e com os olhos lhes indica a direção.
O cara alto e forte lhe manda um beijo por trás das costas da menina e eles somem no final do corredor como dois felinos em busca de uma alcova para cópula.
— Então. Se eu te ajudar pela ultima vez você promete que nunca mais irá atrás dela? — seus olhos agora queimam em um tom escarlate feito sangue, apavorante — Se eles descobrirem, eles acabam com sua vida. Helm sabe do que você tem feito e ele está na sua cola.
— Você contou alguma coisa?  — pergunto com a plena certeza de que ela me traiu.
— Mas é claro que não seu idiota! Você andou fumando alguma parada por aí é? — dispara ela dando uma tapa na minha cabeça toda indignada.
— Não haverá próxima vez.
Ela fica em silêncio degustando minhas palavras dentro de sua mente. Seus olhos buscam um vacilo em minha face, mas ela só encontra a verdade. Ela mais do que ninguém sabe de verdade do futuro de todos nós, mas ela ainda não tinha percebido o que eu estava querendo dizer.
— Oh, Heian... Me desculpe eu não queria... Você vai desistir? — ela diz cobrindo a boca e o nariz com as mãos, seus olhos de repente parecem mareados, afogados em lágrimas.
— É só não contar a ninguém. E então vai me ajudar?
Ela me abraça fortemente com se esse fosse nosso ultimo abraço.
— Dorme aqui hoje?
Eu apenas sorrio para ela.
— Se um dia eu pudesse ser tocado pela morte, seria nos seus braços que eu queria estar no momento em que ela viesse me abraçar. — confesso assim que lhe beijo com todo o amor que jamais pude esconder que sentia.
Ela me olha seriamente, com toda seriedade que uma jovem é capaz de olhar e sorri, mas não há um pingo de alegria em seus olhos e sim apenas dor.
— Ao amanhecer você estará do outro lado, mas agora temos um longo caminho para seguir. Um caminho sem volta que nos levará ao encontro de nós mesmos. Você se lembra do caminho até onde você despertou pela ultima vez?
— Não, mas gostaria que fosse como o entardecer de um dia de outono. Com árvores secas e folhas pelo chão. Gostaria de poder sentir que por onde eu passar haverá um pouco de mim espalhado por aqui. — confesso meu desejo mais profundo de libertação desse meu cárcere antropomórfico.
Ariakness sorri e agora há ternura em seu olhar com um misto de desespero e paixão que somente em seus olhos eu pude ver ao longo de todas essas eras.
— Garanto que não haverá dor e haverá uma estrada para se seguir para onde quer que você vá.
Então eu a beijo com a mesma convicção de minha decisão.
— Seja onde for nunca estaremos distantes, pois nada pode estar além de nossos corações.
E então ela sorriu pela ultima vez...


Um comentário:

  1. Parabéns Eryck!!
    Muito bom os 2 textos "O Desabafo de Outono!"

    Abraços Brother

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