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sábado, 22 de maio de 2010

Helm Castelo Cinzento - 1/12



Reino Élfico de Inaradrinn, 29 de Julho de 1386.
No início eles acreditam serem normais, que talvez façam parte do mesmo mundo que todos os outros ao redor, mas aos poucos vão percebendo que não passam de estranhos fora do ninho. O desespero toma conta de seu ser na mesma medida em que para todos ao redor eles aparentam estar melhorando.
Por dentro são como um turbilhão de sentimentos todos colidindo em uma gangorra de euforia e depressão. Se ao menos os que estivessem ao seu redor percebessem o quanto são capazes, o quanto poderiam ser produtivos se motivados ou desafiados, não os classificariam como imprestáveis.
Ao longo da estrada muitos se perdem por caminhos que deveriam ser evitados e não por falta de instrução, mas por pura revolta. Eles se sentem como alienígenas em suas próprias famílias, isso quando eles as possuem. Ninguém os escuta, nem ao menos percebem o quanto são afetados por tudo ao redor, não até que a pior das conseqüências se concretize...
O suicídio.
A partir deste momento, os que passam acreditar piamente que a única saída para a libertação de todo o sofrimento seja dar cabo da própria existência, já estão além de qualquer ajuda. Mas, não por falta de vontade, pois eles sempre estiveram ali, na berlinda do cotidiano de seus semelhantes implorando silenciosamente por qualquer ajuda.
Então, é só quando o suicídio é concretizado que os hipócritas ao redor começam a perceber o quanto aquelas pessoas precisavam de um pouco mais de compreensão e menos cobrança. Que talvez toda a falta de ânimo para seguir em frente era o singelo indício de um devastador tumor preste a gangrenar.
Com Helm Castelo Cinzento não foi diferente.

Durante sua conturbada infância ele sempre foi hostilizado por todos ao seu redor simplesmente por ser um mestiço. Helm era considerado um menino fraco, indigno do respeito da sociedade élfica.
Ao longo de toda sua vida ele conviveu com pessoas que invejavam sua beleza e a força que imergia de seu espírito resplandecendo em seus magníficos olhos azuis. Uma força que nem mesmo ele imaginava possuir.
Quando atingiu sua maioridade, Helm já acreditava que era um erro ter nascido. Então, passou a odiar o sangue humano que corria em suas veias e a si mesmo. E o ódio foi crescendo em seu coração como um vírus avassalador dominando cada fibra de seu ser. Helm concluiu que não possuía mais nada a perder e que a melhor saída era libertar-se da própria pele.
Ele sabia que a Dark Ovolun lhe revelaria tudo.
Era hora de dar o fora.
A sociedade élfica dos Inaradrinn odiava os mestiços e se não vivessem em um rígido código de proteção a vida, com certeza teriam dado cabo de Helm logo que saiu do ventre de sua mãe, que muito debilitada pelo parto não resistiu e veio a falecer deixando ao filho toda glória por sua morte.
O pai que nunca conheceu, diziam tratar-se de um soldado arthaniano.
Helm superou todos os tipos de torturas físicas e psicológicas as quais fora submetido durante seus treinamentos, os Inaradrinns queriam apenas os mais fortes combatentes em suas fileiras.

Ele nunca se esquecia dos sorrisos maliciosos que se insinuavam nos lábios de seus "irmãos". E por muitas vezes foi abandonado à própria sorte nos campos de batalha.
Helm nutria um ódio supremo por todos os elfos e por toda a sociedade da qual fazia parte, por seus costumes, sua cultura e tudo o que naquela terra nascia. Pensava dia e noite que talvez fosse melhor estar entre os homens, pois talvez sua existência não fizesse tanta diferença. Mas, no fundo ele sabia que não havia lugar para ele neste mundo.
Conforme dito anos atrás por Dourado Implacável, Helm já não possuía forças para continuar com essa existência medíocre. Seu psicológico estava despedaçado, sua pele transpirava ódio e desespero. Ele já havia desistido de querer fazer parte de algo pelo qual não valia à pena morrer e muito menos continuar a viver.
Helm só aceitaria morrer por uma causa pessoal.
A libertação de todo o sofrimento lhe dará uma nova perspectiva da realidade oculta por trás de tudo, lembrou-se Helm dos conselhos de Dourado Implacável.
Então. No dia 29 de julho de 1386, Helm deixou seu quarto conforme o planejado e deambulou ao longo da madrugada por entre as pontes suspensas que interligavam os edifícios-árvores de Inaradrinn numa ultima marcha de despedida.
Totalmente oculto dos olhos de todos, Helm abandonou os limites da cidade élfica e prosseguiu em silêncio até as margens do Lago das Lágrimas e ali contemplou as águas esverdeadas que receberiam seu corpo.
Tudo estava de acordo como lhe fora instruído seis anos atrás.
A noite sombria que pairava no lago tonificava os desejos mais profundos de Helm, uma brisa gélida e sobrenatural acalentava sua alma afinada com o brilho das estrelas que coalhavam a noite azulada. Helm sabia que tudo isso era o rastro da existência de algo muito além de sua compreensão, algo que ele ansiava por descobrir o significado.
Dourado Implacável lhe garantiu que elas viriam apenas com o suicídio.
Para ele, homens e elfos eram literalmente como estrelas: alguns possuíam sua própria luz enquanto outros existiam apenas para refleti-la. Já, pouquíssimos atingiam sua própria supernova - o tipo mais devastador de detonação estelar - ou o suicídio no caso de Helm.
Helm estava cansado de ser diferente e o punhal que trazia sob seu manto o libertaria deste mundo. Sem dor ou arrependimento o fio da lâmina draconiana rasgou sua garganta libertando todo seu sofrimento junto com o sangue que se esvaia.
E então, as trevas da morte abraçaram-no no ultimo embalo do sono eterno acalentando sua viagem rumo à mansão dos mortos enquanto seu corpo submergia nas profundezas do Lago das Lágrimas.
Alguém havia quebrado o rígido código de proteção a vida dos Inaradrinn.
E este alguém era Helm, a própria vítima.


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