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sábado, 22 de maio de 2010

Helm Castelo Cinzento - 11/12



Reino Élfico de Inaradrinn, 28 de Julho de 1986.
Um dia antes do suicido de Helm.
Nas profundezas de todo coração existe uma faceta negra do caráter de todos nós. Muitos tentam subverter a verdade alegando que por algumas vezes e apenas algumas vezes é que perdemos a cabeça e tomamos decisões baseados no ódio. No caso de Helm era ódio que alimentava sua determinação e sua sede de auto-afirmação. Era o ódio por tudo e sua incrível dificuldade de trancafiá-lo dentro de si que faziam de Helm um hospedeiro perfeito para o espírito da Dark Ovolun.
  Dourado Implacável colocou suas mãos sobre o ombro de Helm e os dois caminharam até a beira da cúpula da gigantesca árvore que era o Palácio Real do Rei Erwenth.
― O que você vê lá embaixo Helm? ― perguntou apontando para os elfos que caminhavam e conversavam tranquilamente.
Helm ficou em silêncio observando. Tentou entender o verdadeiro sentido da pergunta. Por mais que seus olhos enxergassem a verdade era sua cegueira psicológica que lhe impedia de responder a pergunta.
― Eu vejo uma terra de hipocrisia. Vejo tudo àquilo que eu aprendi a amar e odiar durante toda minha vida. Eu vejo uma terra repleta de tesouros e mistérios. Um povo altruísta e ao mesmo tempo arrogante e prepotente. Eu vejo aquilo que aqui ninguém mais vê. ― disse ele sacando punhal draconiano e mostrando-o ao velho mago.
Dourado Implacável balançou a cabeça.
― Você é cego Helm, ainda é. Você vê apenas aquilo que eles lhe ensinaram a ver. Sabe o que eu vejo? ― Helm levantou as sobrancelhas ― Eu vejo um povo que traiu os anões de Orion por avareza. Eu vejo um povo que abandonou os homens da Arthania quando eles mais precisaram ante os Trolls de Orazza. Eu vejo um povo que teria te matado assim que você nasceu se não fosse por conta das leis as quais eles respeitam, mas isso não muda de maneira alguma o que eles sentem por você em seus corações.
Helm sentiu as palavras do velho mago esbofetearem sua face. Essa era verdade que ele negava-se a ver. Ninguém por ali o respeitava de bom grado.
― Você é uma piada aqui para eles Helm. Meio-Elfo? Que merda de ser é isso? Porque não Meio-Homem? Você é um ser incompleto. Nunca será aceito nem por homens nem por elfos aonde quer que você vá. ― disparou Dourado Implacável tocando o peito de Helm a cada palavra com seu dedo indicador. Logo em seguida acendeu seu cachimbo e com a fumaça tragada assoprou tudo nada face de Helm.
Helm já estava cansado das provocações do velho mago e deu-lhe uma tapa no cachimbo assim que a fumaça bateu em seu rosto. Dourado Implacável observou seu item querido rodopiar no ar despencando lá de cima. Olhou para Helm revoltado.
― Você acha que eu sou idiota velho mago? Eu não lhe chamei aqui para me dar lições de moral. Eu quero a verdade. O que há do outro lado? Porque eles me querem lá? ― exigiu Helm entre dentes segurando o mago pelas vestes e sacudindo-o em busca de respostas.
Dourado Implacável riu quando Helm gritou e afastou-se dele com as mãos queimadas assim que seu manto numa fração de milésimos de segundo incendiou-se e apagou-se.
― Olhe bem Helm. Você é muito ingênuo para ser o escolhido da Dark Ovolun. Aquele dia quando eu te encontrei no templo em Áquila eu também recebi o chamado. E sabe de uma coisa: eu também sou um daqueles dragões que odeiam seres como você. Mestiços de sangue negro. ― confessou o velho mago entre um sorriso malicioso.
Helm piscou sem entender o que o velho mago lhe dizia.
― Minha vida toda eu procurei o sinal de uma das Dark Ovoluns e para minha surpresa quando eu encontro um, lá está você antes de mim. Você foi escolhido por ela e isso que impede que eu te mate. Realmente eu não tinha poder para isto naquela época. ― disse ele sorrindo ― Mas, depois que você matou o Grão Mestre as coisas mudaram.
Helm entendeu tudo. Ele havia sido apenas usado pelo inimigo. Dourado Implacável era seu verdadeiro inimigo. Aquele que mais do que todos desejava possuir a Dark Ovolun. Sua preocupação com Helm nunca fora por nada além do que arrumar um jeito de possuí-la. Só então Helm entendeu o terrível erro que cometera ao convocar o inimigo para dentro da terra secreta dos elfos, assim como Ewok profetizara ele havia feito.
― O que a morte do Grão Mestre tem a ver com a sua capacidade de me enfrentar velho miserável? ― disse Helm empunhando o punhal draconiano pronto para reagir ao mínimo movimento do mago a sua frente.
― As Ovoluns. Toda vez que um dragão morre seu espírito é transformado em uma Ovolun correspondente ao seu poder em vida. Ao matar o Grão Mestre você tirou do meu caminho o único que poderia me impedir de conquistar meus objetivos. Você me deu de mão beijada o poder do Grão Mestre, o mais antigo dos dragões da nossa ordem. ― revelou o velho mago empunhando seu cajado de madeira pronto para reagir a qualquer movimento ofensivo por parte de Helm.
Helm sentiu seu corpo formigar. Sua pressão arterial estava a mil por hora e ele sabia que caso não se controlasse acabaria por transformar-se no Vulto Sombrio e ele sabia que era isto mesmo o que o velho mago estava tentando fazer com todas essas provocações.
― Eu não entendo uma coisa valho mago. Por que o Grão Mestre confiaria tanto em mim para entregar-me a única arma que era capaz de matar-lhe? Capaz de matar qualquer dragão com apenas uma picada de sua lâmina? ― disse Helm controlando o ódio que percorria seu corpo tentando possuí-lo. Sua vontade de entregar-se aos seus instintos e acabar com a vida do velho mago traidor era angustiante.
Dourado Implacável sorriu extasiado.
― Antes de lhe responder isso Helm. Quero lhe contar uma coisa. Lá fora de Inaradrinn no meio da Floresta de Ivendor, todo meu exército de dragões mortos-vivos espera pelo sinal que eles tanto procuram durante todos esses anos em que você permaneceu escondido aqui. Assim que você trazer o poder da Dark Ovolun à tona eles encontraram o caminho até sua terra natal. Então Helm, caso você não queira que todos esses elfos miseráveis morram em um piscar de olhos não se transforme. A decisão é sua. ― advertiu o velho mago deliciando-se com a cara de assombro que Helm lhe revelava.
Helm olhou para os lados revoltado.
― Seu miserável! ― gritou Helm vermelho de ódio sentindo algumas partes de seu corpo escurecer ― Você armou tudo isso quando deixou que eu voltasse. Você queria estar aqui não é? Queria descobrir a localização de Inaradrinn não é? ― berrou Helm controlando o ódio que já lhe escurecera a visão. Helm estava cego. Apenas ouvia. Nada via. Estava quase se entregando.
― Vamos lá Helm Castelo Cinzento! Não faça média com estes elfos agora. Eles te odeiam. Liberte o poder da Dark Ovolun e acabe com todos eles assim como você fez em Áquila com o povo de seu pai. Faça o mesmo com o povo de sua mãe agora! ― gritou Dourado Implacável gargalhando em volta de Helm maravilhado com a capacidade do Meio-Elfo de resistir tanto tempo à transformação. Poucos homens na história tiveram uma força de vontade tão grande como a que ele via agora.
Era um espetáculo a parte ver Helm tentar controlar seu ódio. O Meio-Elfo estava agonizando tentando manter-se de pé lutando contra a força de vontade da Dark Ovolun. Dourado Implacável sabia que os motivos pelos quais Helm não revelava sua forma e entregava todo o povo élfico nas mãos de seus dragões mortos-vivos era talvez o amor por a elfa que ele tanto amava. Talvez ele não quisesse ter a culpa da destruição de Inaradrinn em suas costas.
― Por que você resiste Helm? Está com medo de sentir-se culpado? Se todos aqui morrerem ninguém ira lhe culpar. Não haverá ninguém para culpá-lo por estar mortes assim como eles lhe culpam pela morte de sua mãe. Desde o momento de seu nascimento você já era um assassino Helm Castelo Cinzento! ― gritou Dourado Implacável ensandecido vendo suas palavras penetrarem na armadura psicológica que Helm usava contra a Dark Ovolun.
Helm estava agonizando. Contorcendo-se. Lutando bravamente contra o poder descomunal que tentava a todo custo dominar sua razão e libertar o ser sombrio que havia dentro de si, mas Helm sabia que se fizeste isso os mortos-vivos captariam o poder emanado por sua forma. Pelo espírito draconiano que jazia adormecido dentro dele. Ele não podia deixar que seu povo morresse por sua incapacidade de controlar seu ódio, por mais que isto fosse o que ele mais desejasse. Ele já possuía em suas costas as mortes do povo arthaniano e de sua mãe, mas ainda não entendia o que poderia ser tão estarrecedor em relação à morte do Grão Mestre.
― Diga... ― sussurrou Helm ― Por que... O Grão Mestre... Confiou tanto em... Mim?
Helm estava segurando o punhal à frente do mago lutando bravamente contra si mesmo. A maior das batalhas de sua vida estava sendo contra si mesmo. E Helm sabia que este era o único inimigo em todo universo que poderia derrotá-lo.
Dourado Implacável agachou-se a frente do Meio-Elfo que agonizava ante a transformação iminente e sorrindo prazerosamente disse com toda meticulosidade possível:
― Ele era seu pai Helm!
Os olhos de Helm ficaram negros.

*****

Ariakness adentrou os limites do reino élfico de Inaradrinn sabendo que lutava contra o tempo. O que movia suas pernas exaustas era apenas o amor que sentia pelo seu velho amigo de infância. Ele sabia que ele estava de volta, ouvira falar na terra de seus primos que o Meio-Elfo estava vivo. Que seu grande amor estava em casa novamente.
Mas desta vez Ariakness sabia que não seria um encontro tão caloroso quanto ela desejava. Ela era uma das Caçadoras Implacáveis, perseguiam dragões malignos em busca das terríveis Ovoluns a fim de destruí-las. Elas eram treinadas para encontrá-las em qualquer lugar do mundo e exterminá-las e agora ele sabia que uma delas. Uma das mais poderosas de todas elas estava em sua terra natal.
Estava com Helm, seu grande amor.
Razão e emoção. Ariakness caminhava pelas sombras da floresta de seu povo como se fosse parte do manto sombrio da noite estrelada. Dissimulada. Furtiva. Literalmente bela e mortal. Ela sabia que não poderia dar cabo de seu grande amor. Ela deveria matá-lo segundo o código das Caçadoras, mas seu coração lhe proibia.
Seu coração lhe dominava quando o assunto era Helm.
Sua busca incansável atrás de seu grande amor depois de quatorze anos chegara ao fim. Ela estava tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Razão e emoção brigavam em seu peito. E mesmo assim ela escalava como uma sombra os galhos e as raízes do Palácio Real em busca de seu amor que ela sentia que se encontrava La em cima.
Uma antítese. A Dark Ovolun lhe conduzia ao encontro de seu grande amor e não de seu inimigo como sempre fora. Ela sabia que todo o rastro de destruição e morte na cidade de Áquila era por conta de Helm e a Dark Ovolun. Ela sabia tanto quanto os exércitos de dragões mortos-vivos que se encontravam a espreita na floresta de Ivendor que a Dark Ovolun estava por ali.
Que Helm Castelo Cinzento estava por ali.
Mas, assim que alcançou o topo da gigantesca árvore que era o Palácio Real, Ariakness sentiu a presença de algo muito mais desesperador do que a Dark Ovolun. Ela viu seu grande amor agonizando no chão lutando contra o poder da esfera maligna. Ao seu lado havia um mago de manto dourado, Dourado Implacável o líder dos Dracolichs, o inimigo mais temido pelas Caçadoras.
E pior. Havia uma segunda Ovolun no lugar. Em posse do velho mago. Uma Ovolun que nunca fora vista por ninguém em toda história. Era o único exemplar visto até hoje, pois sua existência ainda era uma lenda. O velho mago estava de posse da mais poderosa Ovolun de todas. Ele estava com a Gold Ovolun.  
Helm estava prestes a se transformar.
Só havia uma coisa que ela podia fazer para impedir.

*****


Dourado Implacável sentiu a fração de segundo que faltava para que suas hordas nefastas localizassem a presença da Dark Ovolun e abriu os braços degustando o momento em que marcaria a queda de Inaradrinn. Mas, antes que o meio-elfo a sua frente completasse sua transformação ele viu uma flecha dourada atravessar o peito de Helm e o poder da Dark Ovolun ser neutralizado.
Helm abriu os olhos e viu a ponta dourada da flecha mágica iluminando tudo ao redor através de suas entranhas. Ele conhecida muito bem a flecha que estabilizara sua transformação. Ariakness estava de volta, não estava morta como disseram. Dourado Implacável deu um passo para trás.
Helm então diante dos últimos segundos que lhe restavam antes da morte iminente deu um passo a frente na direção do velho mago e com todas as forças que lhe restavam cravou o punhal draconiano na garganta de Dourado Implacável.
Ariakness correu na direção de seu grande amor e o segurou em seus abraços assim que ele desabou diante do ferimento de morte que a flecha mágica lhe causara. Dourado Implacável desabou no chão de joelhos segurando a garganta que esguichava sangue por entre seus dedos e seus olhos incrédulos repousaram sobre a bela e mortal elfa de cabelos verdes que segurava em seus braços seu grande amor.
― Morra dragão maldito. Aqui termina sua vida diante do maior inimigo que você poderia enfrentar. Nada prevalece sobre o amor! ― disse ela beijando Helm em seus braços enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto ― Perdoe-me meu amor. Perdoe-me...
Dourado Implacável começou a desintegrar-se e antes de desaparecer completamente gritou com todas suas forças:
― Eu voltarei! Eu voltarei! ― profetizou o dragão dourado sob a forma do velho mago e então se desintegrou completamente.
No local onde as cinzas do mago se espalharam uma esfera dourada repousou.
A Gold Ovolun, a mais poderosa de todas que existiam.
Só havia uma coisa que Ariakness poderia fazer para salvar a vida de seu grande amor.
E então, sem pensar duas vezes ela enfiou a Gold Ovolun no peito de Helm...

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