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sábado, 22 de maio de 2010

Helm Castelo Cinzento - 6/12



Forte da Garra, 20 de Maio de 1380.
O salão de audiências era uma ampla câmara circular de pedra. Medieval. Sombria.
Havia um espaço amplo em seu centro totalmente rodeado por arquibancadas onde os membros da suposta resistência se reuniam. Suposta, pois Helm ainda não sabia de quem se tratavam. Não havia ninguém no local, além de um velho mago.
Mais um velho mago pensou Helm.
A passagem principal iluminada por tochas revelou ao único anfitrião a chegada de dois indivíduos que ele conhecia muito bem. Um era um velho membro da fraternidade e o outro: um jovem meio-elfo sob a sombra de seu sobrenome.
Os dois visitantes chegaram até a tribuna onde se encontrava o mais antigo de todos os membros da fraternidade draconiana da Torre da Garra. Isso era um privilégio que poucos homens tiveram ao longo de todas as eras. Mas Helm não sabia nada disso e se soubesse não faria a menor diferença.
Um mago de longa barba e vestido num manto negro levantou-se assim que os dois se aproximaram. Helm calculou por baixo uns setenta anos, mas os olhos já esbranquiçados do ancião a sua frente não traiam sua longevidade e nem o poder que eles resplandeciam.
Helm fez menção de ajoelhar-se, mas o mago embrulhado num manto dourado ao seu lado, o mesmo que o fizera adormecer em uma das torres de Áquila, o impediu.
― Aqui somos todos iguais. Este é Azzaroth: Grão Mestre da Ordem da Garra entre muitas outras coisas. Foi ele quem enviou o chamado da Ovolun. É a ele que elas servem. ― disse o mago orgulhoso da expectativa que este momento significava.
O Grão Mestre observou o jovem meio-elfo em sua frente trajado com calças e jaquetas negras de couro negro envolto sob a capa negra com o símbolo da garra que todos os assassinos da ordem usavam.
Ele já é um membro, aceitou seu destino.
Helm mantinha-se firme. Em sentido. Nada disse, apenas esperava suas ordens.
― Bem vindo Helm Castelo cinzento, filho de Elmer Castelo Cinzento. Descendente legítimo dos imortais das florestas de Inaradrinn e dos bravos soldados arthanianos. Senhor e guardião da Dark Ovolun. Membro da Ordem da Garra e meu amigo. ― dissertou o mago estendendo a mão a Helm que a apertou....
E então trevas...
   
*****
Helm viu uma terra desolada. Uma terra negra e coberta de sangue. Onde povos mutilavam-se por nada. Uma terra coberta de concreto em chamas e fogo no céu. Máquinas de metal riscavam as estrelas com rastros de fogo e fumaça espalhando a morte através de suas asas. Havia fome. Dor. Medo. Desespero.
Era um mundo estranho e apocalíptico.
Helm entendeu.
Era o mundo real.

*****
Quando Helm soltou-se do aperto o mago a sua frente sorriu. Sabia o que Helm havia visto. Sabia que o que planejara surtira o efeito desejado. O meio-elfo estava pálido.
Não há nada para você neste mundo a não ser a morte Helm.
― Todos um dia já se sentiram diferentes. De uma forma que todos sabem que não pertencem ao lugar onde estão. Mas e se eu te dissesse que este mundo é uma caverna escura e pequena e que tudo o que você viu até hoje são sombras da verdadeira existência? ― perguntou o Grão Mestre cruzando os braços atrás de suas costas a espera da resposta que ele já sabia que não viria.
Helm nem se mexeu. O mago ao lado de Helm tossiu e sorriu sem graça.
― Você não veio aqui para descobrir a verdade sobre quem você é. Você só veio até aqui para ter certeza que nunca esteve enganado. O chamado. Você ouviu o chamado porque você sempre esteve procurando. Agora você o encontrou e o que fará? Você quer a verdade ou prefere sair por a mesma porta por onde você entrou e voltar para sua medíocre vida? ― ofertou o Grão Mestre mostrando a saída. Havia um brilho de satisfação em seu semblante. Ele já sabia a resposta.
Helm manteve-se em silêncio, sabia que era um teste.
Diga alguma coisa meio-elfo miserável.
O Grão Mestre sorriu satisfeito.
― Todos aqui estão trancados na própria pele condenados ao sofrimento e a morte. Passamos nossas vidas procurando por distração e fingindo que o grande dia nunca chegará. Buscamos os prazeres do mundo material para nos distrairmos. Para fingirmos que a morte nunca nos tocara. Não queremos saber de onde viemos e nem para onde vamos. A humanidade é covarde demais para isso.
O Grão Mestre desceu da tribuna e ficou cara a cara com Helm.
― Enquanto você não se libertar de seus desejos você nunca vai extinguir o sofrimento que há dentro de você. Só há um caminho para a iluminação Helm. Você não deve desejar. Todo sofrimento nasce do desejo e o desejo não te satisfaz. Esta vida é uma ilusão. Estamos todos presos aqui privados da verdadeira existência. Vivemos entre as sombras...
― A verdadeira existência está fora da caverna em que vivemos... ― interrompeu Helm para o espanto do mago e surpresa do Grão Mestre.
O Grão Mestre fechou o cenho.
― Me responda meu jovem soldado. Todos possuem muitos desejos na vida. Desejamos uma vida tranqüila, posses, família e poder. Se um homem aos vinte e sete anos de idade conquista o topo mais alto de mundo. Um lugar tão alto que seu poder e sua glória são conhecidos por todos os cantos do planeta. O que mais este homem poderia desejar?  O que mais ele poderia conquistar?
― Nada. ― disse Helm direto como uma flecha.
― Então qual é o sentido da vida? ― perguntou o Grão Mestre deliciando-se com seu velho jogo.
― Nenhum. Esta vida é uma ilusão. Fomos aprisionados nestes corpos condenados ao sofrimento e a morte. Tudo nesta vida é apenas uma distração. O poder é uma simples distração para acreditarmos que estamos além do toque da morte. E eu quero a verdade além desta vida. ― declarou Helm determinado a encontrar a respostas que este homem possuía.
Você é muito mais do que eu esperava Helm Castelo cinzento. Eu não errei em minha escolha. 
O Grão Mestre repousou sua mão sob o ombro de Helm e sorriu.
― Tudo neste mundo é só uma distração, todos vão morrer. Somente quando você aceitar a inevitabilidade da morte é que você vai começar a viver plenamente. Quando você desistir de seus sonhos e entender que nada neste mundo vale a pena, nada vai impedir que você morra aí sim você sentira que é hora de ir embora deste mundo. Então você, guardião da Dark Ovolun, encontrará a verdade que tanto te atormenta. Ela te guiara do outro lado.
Helm remexeu-se desconfortável.
― O que você está querendo me dizer?
― Você vai fingir que não entendeu? ― replicou o Grão Mestre.
― Você que eu morra? ― retrucou Helm.
O Grão Mestre ficou em silêncio e balançou a cabeça.
― Não Helm. Eu não quero que você morra. Eu quero que você tenha vontade de morrer. Para sair fora desta caverna e encontrar a verdadeira resposta para toda essa existência. A escolha é sua, eu só te entreguei a Dark Ovolun. Eu só te mostrei a porta de saída.
Esse velho idiota deve estar brincando comigo. Que merda de papo é esse?
― Ok. Se eu desejar morrer e isso se concretizar. Que garantias eu tenho de que você está falando a verdade? Como eu saberei se há vida do outro lado? ― perguntou Helm notavelmente irritado.
― Não terá. A escolha é sua. ― disse o Grão Mestre sorrindo satisfeito.
Helm apertou os olhos com os dedos.
Dragões, Meteoritos mágicos, todos vivendo em uma caverna. Nada disso faz sentido.
Helm buscou alguma ajuda no olhar do mago ao seu lado, mas parecia que o único que não estava de acordo ali era ele mesmo.
― O maior segredo que a Ordem da Garra possui eu dividi com você. Você é o guardião de uma Dark Ovolun. Ela é o sinal para que os que estão do outro lado possam encontrá-lo quando você decidir que é hora de partir. Se você morrer e sua morte não for causada por suas próprias mãos, os que estão te esperando do outro lado nunca poderão encontrar seu sinal. ― disse o Grão Mestre entregando a Helm um punhal de lâmina negra cravejado de cristais negros.
Helm aceitou o presente.
― Use esta lâmina para fazer o serviço. Você é um assassino agora e sua primeira presa chama-se Helm Castelo Cinzento. Faça um favor a você mesmo, liberte-se. A verdadeira guerra está sendo travada do outro lado, aqui você não passa de um prisioneiro. ― disse o Grão Mestre respirando profundamente. E outra vez. E de novo.
― Nossos inimigos chegaram Helm. Vocês foram seguidos. Não podemos enfrentá-los neste lugar. Este é o mundo deles não o nosso. Temos que fugir. Há um caminho que subterrâneo que nos levara além das montanhas. Não se esqueça Helm: este não é o seu mundo. Liberte-se para sua verdadeira natureza... ― disse o Grão Mestre assim que um exército de mortos-vivos iniciou a invasão sob a Torre.
    Helm fez menção de transformar-se novamente no vulto negro, mas o Grão Mestre interrompeu.
― O poder não está na forma e sim no espírito. Nunca revele sua forma de agora em diante, assim eles não podem rastreá-lo. Nunca se esqueça, estes mortos-vivos são dragões, não são meros inimigos.
Helm assentiu.
― Agora a saída.
           Então os três correram com um exército de mortos-vivos a reboque

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