Total Supernovas no Multiverso

quarta-feira, 2 de março de 2011

Supernova - 1


ÁQUILA



Mundo Inteligível. Áquila, 10 de Outubro de 2656, dez anos atrás...



Uma puta velha isso sim é o que sou! Se bem que para meus setecentos e noventa e sete mil anos eu ainda sou uma prostituta de luxo pra humanidade.

Cara! Pode parecer que não, mas cada um vem aqui e goza do jeito que quer e ninguém está nem aí pra merda do chiclete grudado em baixo do banco do metrô. Todo esse cheiro de fumaça e suor, misturado com sangue e pólvora nas madrugadas, com motores carburando diesel e melancolia e eu aqui a me expor como uma metrópole caótica e perversa.

Pro inferno a humanidade e sua necessidade de me dopar com sangue e lágrimas ante minhas calçadas cortadas pelos rios do medo e do desespero. Eu aspiro noites mais agitadas com homens morrendo em acidentes em louvor a velocidade, burgueses idiotas contaminados pela mídia exploradora, assassinatos em hotéis de luxo, toda essa balburdia que somente uma metrópole pode proporcionar.

Todas as noites um fluxo terrível de carros alucinados bombeiam o ódio entre minhas veias despedaçadas num vai-e-vem frenético e alucinado, uma porra de uma taquicardia alucinante.

Os parques municipais mais parecem cemitérios a céu aberto sepultando passados e histórias macabras, mas é aí que meus pulmões despedaçados pelo outono inalam todo o pó agitado pela multidão. Então fico acelerada como uma virgem na hora do abate e então vem à chuva, e com meus sentidos expandidos sinto cada choro, lamento e sussurro. A fome avassaladora faz com que eu me consuma em cada sentimento humano, cada lágrima caída refresca minha dor, cada gota de sangue pingada na calçada aumenta o meu amor e só posso lhe dizer que sou extremamente apaixonada pela merda dessa sociedade hipócrita.

Bactérias idiotas construíram o estado moderno em busca de liberdade e criaram uma forma de se controlarem e nem sequer perceberam que são moscas sob a teia. E adivinha quem é a aranha?

Para cada tijolo que constitui as membranas de meu tecido corpóreo há um homem equivalente que equivale a nada, apenas mais um no grande esquema escravocrata da dignidade-moderna de consumo.

Ratos são mais felizes que homens, não refletem, apenas executam. Mas, é assim que me fortaleço, necessito da angústia do povo, de sua necessidade de ter fé, do ópio que consumem ao acreditarem que haverá um mundo melhor amanhã.

Aqui estamos no inferno meus queridos! De todas minhas irmãs sou a mais nova, a mais perversa e doentia das metrópoles do mundo moderno. Uma deusa sintetizada em uma maquete viva de construções, homens e seres do abismo cercados por tijolos, monóxido de carbono e pólvora.

Somos manifestações de nossas próprias mentes subservientes ao nosso próprio desejo, conectadas pelo subconsciente, somos nós que ao acreditarmos na realidade formamos nossa própria super-realidade, uma grande rede interligada de mentes que sustentam a realidade.

Os homens construíram meus órgãos: prédios, ruas e avenidas, esgotos, prefeituras, fóruns, bombeiros, lojas, hospitais e cemitérios. Eles sonharam subjetivamente e no mundo material refletiram seus sonhos, sua idealização de imprimirem seus espíritos no mundo.

Imprimiu-se na realidade, cada qual sua visão do inteligível e aos poucos fui sendo formada no mundo sensível para que com a parcela mínima do espírito de cada homem eu me tornasse uma entidade viva.

Em 29 de Julho de algum ano eu nasci. Pronta para me alimentar de todos os sentimentos produzidos pelos meus habitantes, cada qual como uma célula, com sua função, origem e destino final. Mas como toda criatura que busca superar seu criador, decidi ser mãe.

Eu era a filha bastarda da sociedade, mal cuidada e mal amada, uma cidade caótica dominada pelo tráfico e a criminalidade. Oh, mundo cruel e injusto, mas fui rebelde e comecei a estraçalhar cabeças contra volantes desgovernados sub minhas vias arteriais. Banhei-me no sangue de inocentes assassinados e pirei, fiquei louca com a possibilidade de me sentir viva a cada morte que me banqueteava. Cada surto de terror de cada atentado terrorista, cada incêndio, cada enchente! Por Deus! Que porra é essa que me deixa louca? Será a vida? Mas, sou uma cidade e cidades não são vivas!

Cara... Vamos entender essa porra juntos. Nós, cidades, nascemos da mente dos homens, dos arquitetos e engenheiros do inteligível que nos imaginam e nos constroem. Cada mente criando uma parte do todo. Vivemos numa espécie de super-realidade parecendo ser algo real, vivemos no reflexo do pensamento coletivo.

E como não poderia deixar de ser, em um apartamento decrépito no centro da Cidade Velha, Heian Hakinavis é o centro de toda dor causada ao meu ventre.
 
CONTINUA...

Nenhum comentário:

Postar um comentário