Total Supernovas no Multiverso

sexta-feira, 4 de março de 2011

Supernova - 2


Ele é como se fosse uma célula cancerígena estraçalhando meu sistema neuronal. Na verdade eu odeio todo tipo de arte, o reflexo do espírito dos homens, criando uma tese confrontando com uma antítese e sugando minhas forças criam suas sínteses.

Heian é um falido roteirista de quadrinhos que publica suas obras gratuitamente na web. Mas, o problema dele é que ele percebe essa porra toda que acontece, é como se ele fosse minha própria consciência. Suas obras falam de uma possibilidade de a cidade em que todos moram ser uma entidade viva que se alimenta dos medos e desejos de seus habitantes.

Maldito filho da puta! Ele captou uma inspiração que se conectou a minha mente, ao que sou em aspecto. Agora eu e esse verme somos como se fossemos apenas um, mente e subconsciente. Todo dia tento me comunicar com ele, mas é ele quem me procura. Envio sinais, mas o cara é desligado demais assim como todo jovem de vinte e três anos é da realidade e não me ouve.

Eu nunca me liguei em sua existência até que uma força terrível começou a crescer em seu coração e meus sentidos de caçadora logo perceberam uma presa em potencial. Quando experimentei de seus sentimentos fui tragada para dentro de um vício avassalador como a pior droga de que alguém pode depender.

Então ele começou a me sugar e transformar minha essência e páginas de quadrinhos virtuais, aspectos do inteligível de onde provenho passado para o mundo sensível através de sua mídia e voltando para o mundo virtual. Se esse cara conseguir publicar essa merda de obra e começar a instalar na cabeça das pessoas a idéia de que todos vivem em uma cidade viva, ferrou! Todos despertariam para uma nova percepção da vida ao forçarem suas mentes contra a realidade.

Descobririam a porra da verdade e aí viria o caos.

A concepção do Espírito Absoluto, a tese, a antítese e a síntese. Inteligível, sensível e virtual. Foi então que percebi que estávamos mais do que ligados. Passamos a ser um só.

O Homem e a cidade.

Heian Hakinavis e Áquila.

Nada mais que um mero operador de produção em uma fábrica de armamentos da Corporação Ovolun, dotado de uma alma quente como o fulgor de uma Supernova. Você deve se perguntar que tipo de relação é essa que possuímos não é? Amor platônico, saca? Então, é que Heian não sabia que realmente eu existia. Não até depois do que aconteceu.

Era uma sexta-feira, dia 14 de Novembro de 1380 d.c, quando no fim da tarde Heian saiu das Indústrias Ovolun, um complexo industrial onde se fabrica desde automóveis, eletrônicos, aviões e até as armas de fogo que é onde nosso amigo trabalha que meus soldados foram encontrá-lo.

Não havia dois jovens roqueiros de cabeça raspada com alargadores em ambas as orelhas que andam de motos de 600cv e vestem-se como mendigos em todo complexo, logo meus soldados não demoraram a encontrá-lo. Mas, Heian avistou a viatura do Comando Ovolun, a tropa de elite das forças militares, e arrancou sem nem ter tempo de encomendar sua alma ao diabo, estava em choque.

Como uma tropa de anticorpos sedenta por destruir um vírus, meus homens foram atrás de Heian armados até os dentes com ordem para exterminá-lo. Ora, o cara descobriu que eu sou uma entidade viva, um aspecto do inteligível, já pensou essa idéia sendo impressa na mente da sociedade consumista. Eles refletindo sobre isso, não! Eu não posso deixar que isso vaze.

A perseguição atingiu o coração de minhas entranhas venosas e por minhas veias arteriais, moto e viatura costurava o trânsito pelos sinais vermelhos como sangue esguichando da face.

Heian não fazia a mínima idéia pela qual estava sendo seguido e por vielas e becos escuros derrapava e acelerava sua moto cima dos 160 km por hora. Sua mente oscilava sobre a existência da realidade. Coisas doentias e sobrenaturais estavam acontecendo, coisas impossíveis como o momento em que ele vivia agora. Coisas sobre a possibilidade da manipulação da realidade ou da criação de uma super-realidade.

A noite sobre minha cabeça era sempre doentia e uma névoa espessa encobria meus prédios góticos e caóticos repletos da mais miserável escória da humanidade. Habitam- me vermes e demônios consumidos em sexo e crack desesperados por violência para sentirem-se vivos.

Vermes...

Heian era como uma estrela de prata no céu do inferno, não combinava com a cidade em que vivia. Não praticava crimes nem se vendia ao sexo, não roubava nem traficava, era um puto de um civil normal. O mais puro idiota que não se vendia ao sistema consumista. Acreditava piamente que seu trabalho de merda iria lhe dar dignidade, que seu salário mínimo iria lhe dar a oportunidade de levar as garotas ao cinema, tomar sorvete e refrigerante, beber cervejas e consumir suas drogas em boates fedendo a sexo. Mas, o trabalho lhe fez um homem vazio, despedaçou seus sonhos, escravo consumista. Ensinou-lhe que somos feitos das coisas que possuímos e não do que sonhamos.
 
CONTINUA...

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